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A transposição do rio São Francisco e os impactos ambientais decorrentes dele

quarta-feira, 11 de junho de 2008
Categoria(s): Artigos, Desastres ecológicos, Impacto Ambiental, Meio Ambiente, Recursos naturais
|-> Publicado por: João André Amorim Ferreira

João André Amorim Ferreira [1]
Pós-Graduação em História do Nordeste Brasileiro

 

Resumo

O rio são Francisco, muito famoso desde o tempo do descobrimento do Brasil, está neste artigo como foco geral de análise, sendo que através desta análise muitas outras se desdobram e auxiliam a contextualização do tema que esta sendo exposto. Neste sentido cabe informar que a temática a ser abordada adentra na transposição e no Rio São Francisco. Este artigo aborda um contexto polêmico uma vez que mostra os impactos ambientais que o Rio São Francisco suporta frente a ações humanas que pretendem alterar seu curso, mudar seu volume de água em benefícios de comunidades que supostamente se beneficiariam com estas medidas. O objetivo deste artigo é analisar o Rio São Francisco e os impactos ambientais que podem acontecer em seu contexto frente ao projeto de transposição de suas águas, analisando pros e contras desta ação humana de intervenção em um recurso natural tão antigo quanto o próprio Brasil. Através de uma metodologia que utiliza a pesquisa bibliográfica em livros e artigos que versam de forma ampla sobre o tema, este artigo busca bases para elucidar o objetivo geral acima proposto, onde leva a concluir que muitas são as divergências no contexto da transposição e do Rio São Francisco, mas gera também uma certeza de que o cuidado com o meio ambiente e com as ações que se focam nele deve ser redobrada para que as medidas de remediação não sejam infinitas.

 

Introdução

Ações junto às águas de rios no Brasil e no mundo têm provocado efeitos naturais desagradáveis, não resultando em benefícios maiores que os malefícios.

Assim também se pode analisar na questão da transposição das águas do Rio São Francisco onde este projeto tão falado de transposição de águas pode provocar impactos na atividade pesqueira, nas hidrelétricas, nos peixes, nas águas, na economia, na qualidade de vida e até mesmo nas paisagens naturais.

Destaca-se que alterações provocadas nas lagoas e várzeas naturais, onde ocorre a reprodução e captura dos peixes, e onde, tradicionalmente, se faz a plantação de arroz, ameaça a sobrevivência de espécies naturais e provocam profundas alterações nas formas de geração de renda da população local.

Neste sentido adentra-se a uma verificação de como é possível o projeto de transposição de águas do Rio São Francisco provocar impactos ambientais talvez irreparáveis, sendo este o objetivo deste artigo.

 

Histórico do uso do rio São Francisco

O Rio são Francisco já era conhecido pelos índios antes mesmo da colonização, tendo 2800 km de extensão, fazendo parte da história do Brasil. O descobrimento deste rio é atribuído na história a Américo Vespúcio navegando em suas águas por volta do ano de 1501. (CODEVASF, 2006)

Tem este nome – São Francisco – devido ao fato de seu descobrimento ser próximo a data dos festejos do santo com o mesmo nome. A região onde Américo Vespúcio supostamente descobriu o rio São Francisco era habitada por índios que o chamavam de Opará que significa rio-mar.

Com 2,7 mil km de comprimento, o São Francisco nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais, e tem sua foz na divisa entre Sergipe e Alagoas. Durante o período de seca, de junho a agosto, pára de chover em toda a extensão do rio e a única forma que ele tem de se manter perene é por meio das águas vindas do Sistema Aqüífero Urucuia, no oeste da Bahia. Estas alimentam o rio por drenagem. “O aqüífero é o pulmão do rio, mas em nenhum momento no Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (Rima) do Projeto São Francisco ele é citado. Qualquer impacto observado nas águas subterrâneas pode ameaçar todo o rio”, alerta o professor do Instituto de Geociências (IG) José Elói Campos. (Envolverde/UnB Agência, 2007, p. 1)

A bacia hidrográfica do Rio São Francisco possui uma área de aproximadamente 640.000 Km2 corresponde a 7,4% do território brasileiro, abrangendo parte dos estados de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco além do Distrito Federal (Figura 1), é um rio de integração nacional. (CODEVASF, 2006),

Esta bacia, que é fisiograficamente dividida em Alto, Médio, Sub-médio e Baixo São Francisco (Figura 1), abrange uma grande diferença latitudinal, seus 2.700 Km se estendem da latitude 21° S, nascente, sudeste do Brasil; até 7° S, sua foz na região Nordeste, entre os Estados Sergipe e Alagoas. Os diferentes climas e tipos geológicos traçam diferentes biomas, fisiografia do canal bastante distintas, e características hidrológicas peculiares (SECTMA, 2006).

FIGURA 1 – Bacia do Rio São Francisco

Bacia do Rio São Francisco

Fonte: (CODEVASF, 2006)

O Alto São Francisco estende-se desde as cabeceiras, na Serra da Canastra, Município de São Roque de Minas, até a Cidade de Pirapora (MG), abrangendo as subbacias dos rios das Velhas, Pará e Indaiá, além das sub-bacias dos rios Abaeté a oeste e Jequitaí a leste, que conformam seu limite. Situa-se em Minas Gerais, abrangendo a Usina Hidrelétrica de Três Marias, e apresenta topografia ligeiramente acidentada, com serras e terrenos ondulados e altitudes de 1.600 a 600 m. O divisor leste é formado pelas montanhas da Serra do Espinhaço, estreitas e alongadas na direção N-S, e com altitudes de 1.300 a 1.000 m. (SECTMA, ibidem).

Do lado oeste, destaca-se a Serra Geral de Goiás, cujas cotas oscilam entre 1.200 e 800 m. Sobressaem-se, ainda, os escalonamentos de superfícies de erosão até a Depressão São Franciscana, em direção à calha do Rio e dos principais afluentes, cuja cota, em Pirapora, é de cerca de 450 m (CODEVASF, ibidem). É uma região onde predomina o clima úmido, havendo trechos de clima subúmido úmido e subúmido seco, sendo, portanto, uma importante região geradora de vazões. (SECTMA, ibidem).

 

A água como problema de seca no Nordeste

A seca é um fenômeno já muito popular em diversas partes do mundo e do Brasil, sendo um problema bem mais grave na região Nordeste onde muitos passam sede e possui devido a seca, baixa qualidade de vida.

O Nordeste brasileiro passa pela maior crise de abastecimento hídrico de sua história. Caso não chova no próximos dias, só no estado de Pernambuco, 39 municípios deverão entrar em colapso nos próximos três meses. Essa notícia foi divulgada no Diário de Pernambuco, na edição do dia 07 de abril de 2000. Para o final de abril está previsto o colapso dos municípios de Buíque e Pedra, no Sertão. Em maio, serão Agrestina, Aliança, Caruaru, Chã Grande, Escada, Glória de Goitá, Gravatá, Lagoa dos Gatos, Joaquim Nabuco, São José e as localidades de Rancharia, Bonança, São Pedro e Batatinhas. Já em junho, serão os municípios de Araçoiaba, Angelim, Belém de Maria, Brejinho, Carpina, Chã de Alegria, Condado, Feira Nova, Itapetim, Lagoa do Carro, Lagoa de Itaenga, Lajedo, Macaparana, Machado, Moreno, Orobó, Paudalho, São Vicente Férrer, Timbaúba, Vicência, Vitória de Santo Antão e o distrito de Sirigí. Esse quadro preocupante em Pernambuco, bem reflete a situação caótica de abastecimento que se instalou em todo o Nordeste brasileiro. (SUASSUNA, 2007,p. 1)

Neste contexto, de seca e de falta de água, surgem muitos projetos e ações que visam melhorar a qualidade de vida dos habitantes desta região, e aumentar o desenvolvimento econômico local.

A realidade hídrica, principalmente nos aspectos atinentes à oferta e uso das águas, é tema que, historicamente, tem marcado o debate sobre o Semi-árido. Essas preocupações têm sido enfocadas nos estudos da Fundação Joaquim Nabuco nos últimos anos e os esforços de seus pesquisadores vêm-se concentrando na busca da compreensão da relação existente entre o solo, a água e as plantas e sua importância para a população. Após o agravamento da crise do abastecimento hídrico do Nordeste no ano de 1999, a transposição do rio São Francisco passou a ser vista como a única alternativa de solução do problema. Atualmente, existem dois cenários bem definidos com relação ao tema. O primeiro é o cenário do imediatismo, caracterizado pela ânsia de fazer chegar água, a todo custo, nas torneiras da população (pensamento muito comum na classe política), sem haver, no entanto, a preocupação com as conseqüências impostas ao ambiente ao se adotar essa alternativa e o segundo é o cenário da ponderação, caracterizado por preocupações constantes (principalmente na classe técnica) com relação às limitações das fontes hídricas na condução do processo transpositório. (SUASSUNA, 2007,p. 1)

No entanto a seca é um problema que deve ser tratado sem gerar novos problemas ambientais, pois uma das opções que muitos apontam como eficaz para o problema da seca é alterar rios, mexer com seu curso e seu volume de águas, no entanto segundo Mackin (1948 apud VIEIRA, 2007, p. 103):

O rio equilibrado é um rio em equilíbrio; a sua característica básica está no fato de que qualquer mudança, em qualquer um dos fatores controlantes, causará um deslocamento do equilíbrio em certa direção que tenderá a absorver os efeitos da mudança.

Isso faz com que seja claro que a seca é um grave problema, no entanto alterar rios como o São Francisco logicamente não poderá resolver todos os problemas que a seca causa às populações afetadas.

 

Projeto da transposição do rio São Francisco

O histórico das propostas de transposição do rio São Francisco é inicialmente apresentado por Pessoa em (1989 apud JUNQUEIRA¸ 2002), no entanto o primeiro registro desta idéia data do governo de D.João VI, sendo que no ano de 1980 o projeto de transposição ressurgiu.

FIGURA 2 – Transposição e seus Eixos

Transposição e seus Eixos

Fonte: Disponível em www.geografiaparatodos.com.br/index.php?pag=sl202

Após três grandes cheias do rio São Francisco, consecutivas, em 1979, 1980 e 1982, surgiu a proposta de desviar as águas do rio para o Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, e Paraíba.

O projeto pretendia transpor cerca de trezentos metros cúbicos para as bacias dos rios Jaguaribe, Apodi, e Piranhas-Açu, podendo irrigar uma área superior a 600.000 hectares. (CODEVASF¸2006)

O fato é que não se tratava de excesso de água e sim uma coincidência que ocasionou grandes cheias, em um período tão curto, na verdade, ao que parece por trás deste projeto se escondiam interesses políticos e eleitorais, sendo fruto da própria incoerência, este projeto não avançou.

Mais precisamente em 1996 este assunto voltou a tona, desta vez tratado com mais seriedade, sendo a terceira versão deste projeto que tinha como objetivo aproveitar os recursos naturais locais das bacias receptoras.

Conforme Vieira (2007) com o aproveitamento destes recursos hídricos locais reduziu-se a vazão a se transposta do São Francisco para 60 m3/s. Levando-se em conta que a vazão média de longo período deste rio é de 2850 m3/s, percebe-se que a água transposta teria pouca influencia na vazão do rio São Francisco.

Esta terceira versão do projeto prevê dois eixos – norte e leste – ambos retirando água do rio entre a hidrelétrica de Sobradinho e Itaparica.

Destaca-se então que as características da margem do Baixo São Francisco, atualmente, são muito diferentes das suas características naturais.

Após a regularização de sua vazão, o regime hídrico e sedimentológico foram artificializados. O abaixamento de nível da água, grande diminuição na deposição de silte e argila e retirada da mata ciliar provocaram um grande recuo da margem.

A vegetação que está na margem hoje não é característica nem adaptada a margem de rio, estão lá porque a margem do rio recuou e chegou até elas.

O mesmo acontece com a granulometria, fertilidade, e percentagem de matéria orgânica do solo, e com a altura e declividade da margem. Existem poucos pontos no Baixo São Francisco onde a margem natural foi preservada, que são justamente os pontos onde há remanescentes de mata ciliar original. (JUNQUEIRA, 2002)

Logo se percebe que projetos deste tipo têm recebido diversas críticas, sendo que se o rio São Francisco como se destacou acima já não é mais o mesmo, pouco restará dele se projetos assim forem adiante.

Na possibilidade de realmente ser iniciado, neste governo, o processo transpositório do rio, uma questão nos vem preocupando sobremaneira: entendemos que atualmente, no Nordeste, isso será muito difícil de administrar, tendo em vista a situação de calamidade pública encontrada na maioria de seus municípios. Supondo que seja resolvido o problema de abastecimento de um determinado município, com água oriunda do São Francisco, por intermédio de ingerências políticas, e sendo esse gesto imitado, com êxito, por outro município igualmente necessitado, essas ações terminam por criar um núcleo reivindicatório que talvez seja mais poderoso do que a reação em cadeia de uma explosão atômica. É a reação em cadeia em busca de água para garantir a sobrevivência humana. Não temos dúvidas que os volumes previstos de 70 m³/s a serem retirados do rio atingirão valores fantásticos, proporcionais às necessidades das populações sedentas, numa perspectiva de impossibilidade de suprimento por parte do São Francisco, tendo em vista as limitações de vazão nele existentes. São questões como essas que temos o dever de levar à discussão, a fim de que tenhamos tempo suficiente para encontrar alternativas de soluções, antes mesmo de se iniciar o projeto. (SUASSUNA, 2007, p. 2)

Destaca-se então que projetos que auxiliem na melhoria da qualidade de vida da população em geral são sempre bem-vindos, no entanto é preciso cuidado com a natureza, não só pensando no bem estar atual dos indivíduos e sim no futuro dos mesmos e no meio ambiente que se terá em decorrência de certas ações hoje impensadas.

 

Análise crítica do projeto

Vieira (2007) cita que os defensores da transposição têm como um de seus principais argumentos o fato de que a vazão a ser transposta é menor que o erro na medida da mesma. Ou seja, os instrumentos de medida atualmente disponíveis não seriam sequer capazes de detectar a diferença na vazão do Rio São Francisco.

Assim, argumentam eles que o efeito negativo que a transposição teria sobre a geração de energia seria desprezível.

Sobre a vazão do São Francisco, o professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental Nabil Joseph Eid observa que o valor de 26,4 m³/segundo autorizado para transposição não é suficiente para sustentar a agricultura irrigada. “Na época de seca, só a população das grandes cidades está garantida de receber água”, observa. Eid mostra que a perda de água por evaporação ou infiltração será de quase 7m³/segundo, o que representaria 26,5% do valor autorizado para transposição. (Envolverde/UnB Agência, 2007,p. 1-2)

No entanto, analisa-se por outro lado, que aqueles que são contrários à transposição argumentam que a demanda por eletricidade esta muito próxima da oferta máxima, e que qualquer diminuição na oferta, por menor que seja, implica em risco em déficit energético com conseqüências desastrosas para a economia.

Na visão do professor do Departamento de Economia da UnB Jorge Nogueira, a transposição é ineficaz para o objetivo a que se propõe. “As origens da miséria do sertão nordestino vão além da falta de água. Lá também falta qualificação profissional e acesso ao mercado de trabalho, coisas que não serão solucionadas com a água”, lembra o especialista. Para ele, se esse recurso fosse mesmo sinônimo de mais desenvolvimento, Belém e Manaus seriam capitais muito ricas. “Quando há água, as pessoas não ficam menos pobres. Talvez morram menos em decorrência da seca, mas a situação de miséria continua”. Por isso, ele questiona o custo de R$ 4,5 bilhões do projeto, referente apenas à construção dos canais de transposição. As obras complementares que garantirão o desenvolvimento regional não possuem recursos financeiros assegurados nem cronograma estabelecido. (Envolverde/UnB Agência, 2007p. 2)

Neste instante destaca-se que apesar de não parecer alguns estados do Brasil possuem água além do que se entende, ou seja, o Ceara, por exemplo, que conforme os estudos de Oliveira (2007) necessita de um consumo por ano de 54 metros cúbicos, tem uma oferta de 215 metros cúbicos. Isso significa que de uma certa forma tende a sobrar água.

Tem-se ainda o Rio Grande do Norte, ainda conforme as pesquisas de Oliveira (2007) este estado dispõe de uma garantida vazão de 70 metros cúbicos, atendendo uma demanda de 33 metros cúbicos.

Já o estado da Paraíba, que é considerado um dos estados menos dotados de água e de conseqüentes recursos hídricos, tem uma disponibilidade de 32 metros cúbicos, e uma demanda de 21 metros cúbicos. (OLIVEIRA, ibidem)

Ainda nos estados nordestinos, conforme Oliveira (2007) estão sendo construídas cisternas, onde o potencial subterrâneo é grande, precisando apenas que a água seja dessalinizada, logo o déficit de água no Nordeste não é da forma como apresentam alguns e sim existe na realidade uma falta de melhor distribuição e organização dos recursos hídricos.

Assim, destaca-se que transpor um rio não é um problema de engenharia somente, não é apenas tirar água de um lugar e colocar em outro.

Assim, transpor um rio se torna um problema ecológico de proporções grandes. Sendo que um rio é mais do que água deslocando-se em uma vala no solo, é ainda um ecossistema de natureza complexa, formando um orgânico conjunto vivo, onde o todo é mais do que a soma das partes.

Desde que o início das obras de transposição das águas do rio São Francisco foi autorizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em abril de 2007, as incertezas sobre o sucesso do projeto voltaram a preocupar a comunidade científica nacional. Na Universidade de Brasília (UnB), seis especialistas da área procurados pela Assessoria de Comunicação garantem que, embora seja notória a necessidade de promover o desenvolvimento do interior nordestino castigado pela seca, a falta de estudos mais amplos sobre o rio São Francisco pode comprometer o investimento de R$ 4,5 bilhões. Pesquisadores da UnB acreditam que a quantidade de água a ser transposta não é suficiente para a agricultura. De acordo com eles, a transposição deverá ser acompanhada por um grande conjunto de obras para as quais não existem recursos financeiros assegurados. E para piorar, pode ser que o rio perca sua vazão em 20 anos. Confira abaixo as análises dos especialistas, divididas em três aspectos fundamentais: sistema físico, sistema biológico e sistema humano. (Envolverde/UnB Agência, 2007p. 1)

Existe ainda um relacionamento físico, biológico, químico, geológico, hidrogeológico e ecológico em todo o espaço que existe entre as nascentes até a foz do rio convivendo em um equilíbrio que só a natureza pode fazer.

Logo, qualquer que seja a mudança desencadeada no rio, um grande conjunto de variáveis será afetado, o que significa dizer que todas as suas partes serão afetadas.

Figura 3 – Transposição do Rio São Francisco – Projeto Atual

Transposição do Rio São Francisco - Projeto Atual

Fonte: Figura extraída de www.integração.com.br/sãofrancisco/projeto/eixos.asp

Assim o que se pode frisar é que este projeto, de transposição, feito e refeito varias vezes tem como seu objetivo geral construir dois canais ligando o São Francisco com bacias menores, construindo posteriormente adutoras no futuro.

As críticas da UnB foram agrupadas sob três aspectos, que, segundo o canadense Asit Biswas, referência internacional em recursos hídricos, são os principais a serem considerados quanto à transposição de águas de uma bacia. O primeiro refere-se ao sistema físico, que inclui a quantidade de água a ser transportada, as análises sobre águas subterrâneas, as mudanças de salinidade e alcalinidade e as conseqüências para a qualidade da água. O segundo aspecto trata do sistema biológico, que abrange a biodiversidade em geral – tanto matas ciliares quanto animais existentes. O último consiste no sistema humano, que inclui agricultura, geração de energia, transporte, desenvolvimento de infra-estrutura complementar, efeitos antropológicos e implicações políticas do projeto. Nas três categorias, garantem os especialistas da UnB, muitas perguntas ficam sem resposta. (Envolverde/UnB Agência, 2007p. 2-3)

Tem-se ainda teóricos que argumentam os contra a transposição das águas do rio São Francisco que a hidreletricidade apresenta uma situação particularmente difícil, o fato de sua capacidade de geração ser determinada pelo volume de chuvas.

Assim chuvas abaixo do esperado podem ter como conseqüência um déficit energético, mesmo sem transposição, como já ocorreu entre os anos de 2000 e 2001. (VIEIRA, 2007)

Naquele período devido há dois anos consecutivos onde às chuvas ficaram abaixo do esperado o Brasil enfrentou um déficit energético de 20%. (OLIVEIRA, 2007)

Vieira (2007) cita ainda que também argumentam os contrários a transposição que não há déficit de águas no Nordeste, o que há é má gestão dos recursos hídricos na região. De acordo com esta idéia a água subterrânea junto com a água disponível nos rios e açudes do semi-árido nordestino seriam suficientes para o consumo humano e o desenvolvimento da região.

Para melhor entender a transposição segue uma verificação

Os recursos de R$ 4,5 bilhões do governo federal se destinam à construção de mais de 600 km de canais para levar as águas do São Francisco às áreas secas do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. O eixo leste vai até o rio Paraíba (PB) e abrangerá 220 Km, distribuídos em 168 municípios com um total de 4,5 milhões de beneficiados. O eixo norte segue até os rios Jaguaribe (CE) e Apodi (RN) e cobre 400 Km, distribuídos em 223 municípios com um total de sete milhões de habitantes beneficiados. (Envolverde/UnB Agência, 2007p. 2)

Neste sentido observa-se de forma crítica que este projeto tem seus benefícios sociais e geradores de qualidade de vida, mas possui também desvantagens ambientais, no instante em que se modifica o curso natural de um grande recurso hídrico que é o rio São Francisco.

 

Impactos ambientais possíveis

Existe uma constante busca de equilíbrio entre descarga líquida, erosão, transporte e deposição de sedimentos.

Conforme Vieira (ibidem) as atividades humanas desenvolvidas no trecho de um rio podem alterar, de diferentes formas e intensidade, a dinâmica desse equilíbrio, com a construção de reservatórios e canalizações, substituição de mata ciliar por terras cultivadas, urbanização e exploração de alúvios, modificando o comportamento da descarga e da carga sólida do rio.

As políticas públicas de desenvolvimento regional adotadas e a opção por um modelo de desenvolvimento que prioriza o uso das águas do rio para irrigação e geração de energia, em detrimento dos demais usos, através da implantação de grandes projetos hidrelétricos, têm provocado profundas alterações na bacia do rio São Francisco, rompendo o equilíbrio dinâmico natural do sistema fluvial.

Logo é mister pelos estudos de Oliveira (2007) e muitos outros que possíveis projetos como o da transposição das águas do Rio São Francisco podem provocar muitos impactos ambientais que gerariam prejuízos sociais, econômicos, ambientais a nível estadual e nacional. Ou seja, entre os muitos impactos ambientais que este projeto pode causar está a escassez de peixes, onde processos como este pode provocar alteração na reprodução dos peixes, causando sua escassez.

Escassez pode surgir ainda no fornecimento de água, se o projeto de alguma forma falhar, logo alguns estados e cidades passarão a sentir a falta da água.

Entre os impactos sociais, econômicos e até culturais, estão todos os reflexos que a falta de água e de fonte de alimentação e fonte econômica que são os peixes podem causar, ou seja, faltando água e peixe, faltarão qualidade de vida para os que desta água e peixe, precisam, abalando naturalmente a economia e a vida social e cultural dos locais afetados.

Conforme Oliveira (2007) outro impacto negativo possível da transposição das águas do rio São Francisco é o assoreamento causando problemas para a navegação, devido ao baixo nível das águas.

 

Considerações finais

Conclui-se que a tentativa de regularização da vazão e a diminuição da seca em certas áreas brasileiras através de projeto de transposição de águas do rio São Francisco podem gerar conseqüências negativas através de impactos ambientais que precisarão de anos, décadas e séculos para serem reparados.

Que existem benefícios na transposição das águas do rio São Francisco, isso é possível se concluir também, no entanto os malefícios e os impactos ambientais decorrentes deste projeto são infinitamente maiores que as vantagens.

É necessário que haja uma conscientização de que alterar algo tão importante e vital como o curso de um rio, ou alterar o volume de suas águas é de certa forma uma ação duvidosa em suas conseqüências finais, tanto é possível haver uma geração maior de benefícios como é fatalmente possível haver um prejuízo ambiental incalculável.

No entanto o que se pode concluir é que gerar os benefícios que seriam possíveis com a transposição é possível também serem gerados de outras formas, como perfuração de poços, entre outros, no entanto para sanar os malefícios que esta transposição poderia gerar seria preciso centenas de anos ou até mesmo seria um prejuízo natural irreparável.

 

Bibliografia

CODEVASF. Baixo São Francisco Sergipano. Estudo Interdisciplinar das sub-bacias hidrográficas. Aracaju, SE: CODEVASF, 2006.

Envolverde/UnB Agência. Disponível em http://www.mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=859. Acesso em 03 de dez de 2007.

JUNQUEIRA, R. A. C. (coord.) Mapeamento temático de uso da terra no Baixo São Francisco. Relatório Final. Projeto de Gerenciamento Integrado das Atividades Desenvolvidas em Terra na Bacia do São Francisco – GEF São Francisco (ANA/GEF/PNUMA/OEA). Subprojeto 2.1 – Mapeamento temático de uso da terra no Baixo São Francisco. Brasília, BR: CODEVASF, 2002.

OLIVEIRA, Ruy Bruno Bacelar de. Transposição do Rio São Francisco: agressão ao povo brasileiro. Disponível em http://www.engeo.com.br/editora/transposi_do_rio_sao_francisco.pdf. Acesso em 25 de Nov de 2007.

SECTMA – Plano Estadual de Recursos Hídricos, Sinopse, Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente, Recife, PE, agosto de 2006.

SUASSUNA, J. Transposição: a gerência da torneira. Disponível em http://www.fundaj.gov.br/docs/tropico/desat/gerencia.html. Acesso em 03 de dez de 2007.

SUASSUNA, J. Transposição do Rio São Francisco. Disponível em http://www.fundaj.gov.br/docs/tropico/desat/. Acesso em 03 de dez de 2007.

VIEIRA, V.P. A Água e o Desenvolvimento Sustentável no Nordeste. IPEA, Brasília, 2007.


[1] Graduado em Geografia pela – Fabeja-PE, especialista em Psicopedagogia pela Ucb-RJ, atualmente pós-graduando em História do Nordeste Brasileiro pela Uneal-AL, professor de Geografia do Ensino Médio na rede pública. E-mail: joaoandre2752@hotmail.com. Orientador: Msc. Antônio Marcos Pontes de Moura.

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7 Respostas para “A transposição do rio São Francisco e os impactos ambientais decorrentes dele”

  1. Nathalia gotuzzo:

    huum! mto bom o texto mas oq que adianta botar td isso para falar sobre o projeto se as pessoas não falam das vantagens e desvantagens desse projeto!!! Eu estava procurando justamente isso (vantagens e desvantagens ) mas eu não consegui achar!!!

  2. Maurí­cio Machado:

    Olá Nathalia. O autor cita de forma rápida sobre as vantagens e desvantagens, como no trecho:
    Para melhor entender a transposição segue uma verificação

    Os recursos de R$ 4,5 bilhões do governo federal se destinam à construção de mais de 600 km de canais para levar as águas do São Francisco às áreas secas do Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. O eixo leste vai até o rio Paraíba (PB) e abrangerá 220 Km, distribuídos em 168 municípios com um total de 4,5 milhões de beneficiados. O eixo norte segue até os rios Jaguaribe (CE) e Apodi (RN) e cobre 400 Km, distribuídos em 223 municípios com um total de sete milhões de habitantes beneficiados. (Envolverde/UnB Agência, 2007p. 2)

    Neste sentido observa-se de forma crítica que este projeto tem seus benefícios sociais e geradores de qualidade de vida, mas possui também desvantagens ambientais, no instante em que se modifica o curso natural de um grande recurso hídrico que é o rio São Francisco.

    Além disso, no final do artigo, em “Publicações relacionadas”, você encontra mais conteúdos sobre esse tema, inclusive este infográfico que aborda de forma minuciosa as vantagens e desvantagens:
    http://amanatureza.com/midia/especial-transposicao-do-rio-sao-francisco

  3. julia:

    pow o texto esta muito produtivo ….
    so q o que eu realmente estava procurando nao achei
    que eram as consequencias …se poderem me enviar a resposta ainda hoje agradeceria muito…

  4. Maurí­cio Machado:

    Olá Júlia. Como é possível ler no artigo acima, o autor descreve várias conseqüências:
    “No entanto, analisa-se por outro lado, que aqueles que são contrários à transposição argumentam que (…) implica em risco em déficit energético com conseqüências desastrosas para a economia.” na seqüência é citado um excerto demonstrando essas conseqüências.

    Entre outros trechos, ao final, o autor ainda conclui:
    “projeto de transposição de águas do rio São Francisco podem gerar conseqüências negativas através de impactos ambientais que precisarão de anos, décadas e séculos para serem reparados.”

    E para complementar, você poderá ver esse conteúdo relacionado (infográfico):
    http://amanatureza.com/midia/especial-transposicao-do-rio-sao-francisco

  5. gabriela vieira:

    este texto esta muito bom mas não tem oq eu preciso eu precido das influencias do rio são franciaco para a cidade de sergipe se puder me mande hoje eu estou precisando muito para o trabloh da escola obrigada

  6. EDINILSON:

    O texto está bastante nítido sobre a transposição do rio São Francisco e os problemas que essa obra pode causar.
    O mesmo ajudou-me bastante no trabalho de geografia.

  7. Luiz Fergon:

    Melhor matéria sobre esse tema que encontrei, parabéns. Percebe-se certa enfase nos aspectos negativos, mas como nordestino sei que é preciso fazer algo para melhorar as condições de vida do sertqanejo. Muito já se fez, mas nada se mostrou mais eficiente do que a transposição. Estou procurando abordagens comparativas desse projeto aos existentes em outros países como EUA, Líbia, Espanha, Rússia, etc. Tenho vaga informação de que a do Mar de Aral na Rússia provocou grandes desastres ecológicos, sociais e e conômicos, já os de outros países não.

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