Amostras de hoje indicam o futuro

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Amostras de hoje indicam o futuro

 

    As recentes tragédias em Angra dos Reis e Haiti são apenas exemplos episódicos da evidência de que o rumo desta civilização é equivocado. Indica também a força orquestrada da mídia em geral. Outras ocorrências naturais em locais diferentes, com conseqüências e significados importantes, passam sem que o mundo tome conhecimento pelo simples fato de que, no critério da mídia, é melhor ignorá-los. No Haiti mesmo temos a prova disso. Se o epicentro do tremor ocorreu a 15 km de Porto Príncipe, é claro que houve grande devastação no círculo territorial que abrange essa distância. No entanto, só cuidam da tragédia da capital; as desgraças das cidades das cercanias são ignoradas.  

   Em Angra, fica escancarada a reação natural à ocupação humana desrespeitosa aos espaços geográficos moldados pela natureza. No Haiti, a maior tragédia é a miserabilidade do povo, numa demonstração do quanto é injusta a sociedade organizada em bases econômicas em que se privilegiam as riquezas individuais. Antes da catástrofe, havia 380.000 órfãos no país, para uma população feminina de 4 milhões. Isso equivale a quase 10% de orfandade, o que constitui um indicador bastante expressivo da degenerescência social. E o país tem pujança de natalidade. Após o terremoto, ainda não se sabe a quantidade de crianças sem referencial de vida. Devemos enxergar e aprender, naqueles acontecimentos, que diversos procedimentos da humanidade se chocam contra os interesses da Natureza.

   Quanto a Angra, os desabamentos das encostas constituem apenas uma reação natural do solo à degradação de suas bases, onde se impõem as reações baseadas nas leis físicas, de conhecimento dos homens. O terremoto antilhano, por si já uma desgraça, fica sumamente agravado pela existência de uma sociedade impulsionadora de mais miséria, representada por analfabetismo generalizado; crenças religiosas obtusas; desflorestamento intensivo; exploração política, policial e econômica; alta taxa de fertilidade; ausência de infra-estrutura.  

   O Haiti tem um histórico para país miserável por conseqüência de diversos fatores criminosos perpetrados pela exploração econômica irracional e desumana. No princípio, mataram os índios que ali viviam e os substituíram pelos negros escravizados em África, ocupando-os nas atividades da cana de açúcar em benefício dos patrões franceses. Depois destes, os americanos sugaram tudo o que havia ali de recursos naturais e abandonaram o local. O poder político-policial-econômico foi apossado por pequeno grupo de mulatos que se locupletaram, sendo Papa Doc o mais expressivo desses carrascos. Resumo: a miserabilidade do Haiti é o resultado da atividade puramente econômica, sem qualquer motivação de caráter social. Isso reduz a zero a capacidade de ele se reerguer.

  Por que essas ações e reações?  As ações humanas apenas ajudam e antecipam ou agravam as reações naturais. Isso nos dá uma lição simples: as forças naturais são tão poderosas que, quando molestadas ou feridas,  tecnologia nenhuma lhes barra o caminho. Ademais, põe em evidência o fato de que o planeta tem vida própria, como já afirmara James Lovelock,  isto é, sua existência cósmica é dinâmica. Tem o poder de reagir, da forma que lhe convém, às ações humanas que a  molestem. E, nesse caso, o bom senso indica que Gaia deve ser bem tratada, cuidada, zelada, com ternura e delicadeza.

   Os povos antigos já tinham esse respeito, motivo por que procuravam tratá-la com o máximo carinho, chegando mesmo a lhe oferecer seus sacrifícios. E nós, homens modernos?  Não podemos, nessa emergência, oferecer-lhe nossos sacrifícios também,  representados pela renúncia aos confortos tecnológicos iníquos e  reformulação de nossa estrutura social, ora construída na base do egoísmo, injustiça e ganância desmedida?

   Dirão alguns que terremotos são ações naturais e não reações. Concordamos. Mas tais eventos são agravados pelos fatores negativos apontados acima, principalmente pela existência de quantidade excessiva da população e suas ações predadoras. Essas ocorrências são localizadas e constituem uma amostra insignificante do que vai acontecer à biodiversidade se o sistema exploratório continuar a depredar o planeta.

   No caso de Ilha Grande, situada no município de Angra dos Reis,  lição importante é a de que estamos ocupando espaço desnecessário, apenas para fins de turismo. E que fique bem claro que turismo é uma forma de consumismo. Dilapidador, portanto, do nosso meio ambiente. Esse ramal consumista, que atende aos interesses econômicos, ajuda a solapar a integridade geológica do ambiente. Tal atividade vem sendo incentivada por todos os meios, ocasionando em ritmo crescente o agravamento dos seus malefícios ao meio ambiente.

   Aos céticos, fica o aviso da Natureza, além dos outros sinais concretos já do conhecimento geral.

Sobre

Maurício Gomide

83 anos, pensador e escritor ambientalista. Reside atualmente em Belo Horizonte(MG), colaborando em diversos blogs ambientalistas.
BLOG: http://planetafala.blogspot.com

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