Carta aberta de empresários

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Carta aberta de empresários

    Em Setembro próximo será realizada em Pittsburg uma reunião do G-20, ocasião em que os principais paises da economia mundial vão discutir a estratégia a adotar na participação do impactante COP 15 – 15ª. Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima – que ocorrerá em Copenhague em dezembro deste ano. Ela servirá de tomada de posição para a reunião preparatória em Bangkok, tudo como arranjos e entendimentos dos países de força econômica para que aquele fórum lavre um documento que substitua o Protocolo de Kyoto.

   Já estamos vendo o caminho deslizante desses inúteis encontros, mas também notamos estarem os empresários brasileiros começando a enxergar a gravidade da situação descrita no 4° relatório do IPCC. Com a publicação da “Carta aberta ao Brasil sobre mudanças climáticas – Nossa Visão”, diversos empresários demonstram perceber que a situação histórica por que passa o planeta não é “Conto da Carochinha”, a ser usada apenas como recurso de marketing, mas um “bicho papão”, real, concreto, efetivo, trágico. Vêem também que, para a normalização climática, são necessárias medidas concretas, extensivas ao planeta, que tornariam inviável a atual estrutura econômica. Isto é: as medidas para salvar o planeta são incompatíveis com o regime econômico vigente. E esse é o “calo” dos donos do dinheiro. Alguns empresários estão enxergando, agora, o que os ambientalistas há tempos apregoam com denodo.

   Está a estrutura econômica diante de um desafio no qual a Vida está em jogo. É agir – e com urgência – ou perecer  juntamente com as gerações futuras, impossibilitadas até de  nascer. Estamos, historicamente, encerrando uma Era – a  Econômica – para entrarmos na Era da Incerteza.   

   Causou-nos certa emoção a carta, amplamente divulgada em 25.8.2009, por 22 importantes empresas brasileiras reconhecendo a validade das admoestações feitas pelos ambientalistas. Põem em relevo, na mencionada carta aberta, o desafio civilizatório apontado pelo IPCC ao limitar a concentração de CO2 na atmosfera, neste século, a 18 Gt CO2e/ano. No entanto, reconhecem que atualmente as atividades econômicas humanos  estão produzindo ao ritmo de 40 Gt CO2e/ano (!!!), o que representa uma tragédia anunciada. A carta implica a “mea-culpa”. Tardia, porém válida.

   Mas, ainda aprisionados ao amor por bens materiais, sensíveis aos valores da cultura individualista, declaram que estão dispostos a entregar à causa um ou dois anéis que ostentam nos dedos, como se isso fosse suficiente para lhes salvar o pescoço. Falam no documento em “novo modelo de desenvolvimento” (haa! Como se agarram ao desenvolvimento!), planejamentos para 2020 (é tarde!) e redução de desmate em 80% (100% é o mínimo!).

   De joelhos, à frente do confessionário, fazem uma solene listagem de promessas redentoras, na suposição de que essa entrega espiritual vá suprir os desfalques planetários. Com efeito, prometem um elenco de propósitos que não constam nas leis naturais que regem a biosfera, tais como:

   a – relatórios de… (bla-bla-blá);

   b – adotar estratégias condizentes… (com bla-bla-blá);

   c – buscar redução de emissão de CO2… (buscar não é medida efetiva);

   d – tentar convencer terceiros… (tentar!!!);

   e – esforçar-se para compreensão… (esforçar-se!!!).

 

   A carta que é longa, séria e sincera, configurando a visão deles, está indicando que alguns empresários já estão conseguindo ver a uma distância de até dois metros (o ideal seria quilômetros), o que lhes permite retroceder dois passos do abismo. É uma visão reduzida, míope, mas é melhor que a cegueira. No final, demonstram a pureza de intenções e sugerem ao governo brasileiro uma série de atitudes, todas elas inócuas como temos visto através da imobilidade do ministério do Meio Ambiente.

  Nos aspectos em que a carta se mostra, os comandantes de economias inseridos nos outros paises têm melhor visão. O importante economista inglês Nicholas Stern já declarava, há poucos anos, que o preço de não fazer nada, no futuro próximo, será maior do que agir agora, com urgência.

  Pelo exposto, o “gigante” começa a se mover. Só isso já basta para nos causar uma tênue esperança.

Sobre

Maurício Gomide83 anos, pensador e escritor ambientalista. Reside atualmente em Belo Horizonte(MG), colaborando em diversos blogs ambientalistas. BLOG: http://planetafala.blogspot.comVer todas as publicações de Maurício Gomide »

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