Diário de Bordo

Todos os dias publicamos novos conteúdos e conquistamos um número cada vez maior de usuários. A equipe do portal AMA agradece a todos os usuários que acessam constantemente este site, que já é uma referência nacional sobre preservação ambiental e desenvolvimento sustentável. E lembre-se, não basta apenas conhecer os problemas, é necessário agir! Cada um fazendo sua parte, de forma consciente, ajuda a melhorar o ambiente em que todos nós vivemos.

Diário de Bordo

  • Quinta-feira – O Trem: Embarcamos no trem às 8:15 hs para o que seria um inesquecível passeio pela Serra do Mar. O trajeto é realmente maravilhoso; este pequenino pedaço remanescente de Mata Atlântica guarda paisagens encantadoras. A ferrovia, por sua vez, é um prodígio da engenharia humana; ela ladeia abismos, adentra o ventre de paredões de rocha e une espaços com ousadas estruturas metálicas. No vagão, o guia discursa as infomações de sempre; faço perguntas e ele demonstra conhecimento. Questiono: “Qual o consumo de combustível de cada locomotiva?”. Responde ele: “08 litros/km”. Faço, então, uma conta rápida: duas locomotivas nos puxam o que dá 16 litros/km x 68 km =  1088 litros de diesel. Pergunto de novo: “As locomotivas não poderiam ser movidas a eletricidade?”. Ele informa: “Houve um projeto que trouxe eletricidade por um pequeno trecho da ferrovia; como ficava muito difícil seguir com a linha de transmissão, abandonaram o projeto”. Logo a frente havia um túnel e o guia alerta: “Sugiro que todos fechem as janelas para não entrar muita fumaça no vagão!”. Consolei-me pensando que, ao menos por aquelas bandas, existiam muitas árvores para “sorver” aquela “fumaceira” toda. . .
  • Sexta-feira – A Ilha: Logo cedo, embarcamos numa “voadeira” que nada mais é do que um bote de alumínio com um potente motor de popa. Percorremos 40 km mar adentro até chegar na Ilha transformada em reserva ecológica. Desembarcamos e nos dirigimos a uma pousada em meio a uma colonia de pescadores e pequenos comerciantes, gente muito simples, cuja população gira em torno de dois mil habitantes. Livres das “tralhas” fomos dar uma volta pelos arredores. Em frente a pousada, vários pequenos barcos de pesca aguardavam pacientemente uma oportunidade para zarpar; na areia, fezes dos vários cães que circulavam por ali começavam a denunciar a sujeira local. Caminhamos um pouco mais e pudemos observar uma vasta e diversificada coleção de objetos plásticos, metálicos e cartonados lançados na orla marítima. Uma vez à beira mar, ninguém teve coragem de arriscar um mergulho. Consolei-me por saber que a 3 km dali havia uma praia deserta, limpa, convidativa. . .
  • Sábado – A Trilha: Após o café da manhã, nos aventuramos em uma trilha em meio a restinga, uma caminhada de cêrca de uma hora. A típica vegetação era exuberante. . . e o seria ainda mais caso fosse época de floração das incontáveis bromélias que compunham a paisagem. No meio do caminho, nos deparamos com um homem de barba branca, chapéu de palha, botas de borracha, blusa de lã e calças rotas. Alguns dos que nos acompanhavam assustaram-se; cumprimentei o homem: “Bom Dia”. Ele, com um sorriso, devolveu a saudação. Reparei que ele trazia nas mãos um saco; e era perceptível a movimentação no interior do mesmo. Perguntei: “Pegou muitos caranguejos?” Alguns”, respondeu ele, abrindo o saco e mostrando-nos os frutos de seu trabalho. Dei prosseguimento à conversa: “Como o senhor faz para pegá-los?” Ele, então, ensina: “Na Crescente e na Minguante, o caranguejo anda de dia e de noite; na Cheia e na Nova ele só sai da toca à noite. Você tem que pegá-lo assim, por trás” – coloca, então, um dos crustáceos no solo e faz uma demonstração. Indago: “Algum já pegou o senhor?” “Sim, vários” e mostra-me os dedos cheios de cicatrizes. . . prossigo o papo: “Este é o único jeito de pegar os bichos?” “Não”, responde ele; “tem gente que desfia esta sacaria trançada, faz uma redinha e coloca na boca da toca; quando o caranguejo vai sair, ele se enrrosca e fica preso“. “O sr. não faz assim também?” “Não, isto acaba com o caranguejo. . .” diante da minha cara de dúvida ele continua: “o caranguejo que interessa é o macho; a fêmea e os pequenos não valem nada. Assim, o pessoal só retira os machos e deixam os demais para morrerem atados.” Agradeci as explicações, despedi-me e tocamos em frente. . . minha disfarçada melancolia só desfez-se dois mil metros adiante quando avistamos o mar. . .
  • Domingo – Os PapagaiosNo final da tarde, pegamos um barco com destino ao Santuário dos Papagaios-de-Cara-Roxa. Esta espécie, outrora quase extinta, acha-se agora sob proteção federal. Nosso objetivo era observar as aves chegando – quase sempre em duplas – com grande alvoroço ao local para pernoite. Sim, pudemos assistir a este belo espetáculo da Natureza; mas vislumbramos também descaso, desrespeito, insensibilidade. Quatro luxuosas lanchas estavam ancoradas no local; seus ocupantes nadavam, gritavam e ouviam música em alto volume numa animada “churrascada marítima”. Uma integrante da SPVS que nos acompanhava, indignada, anotou os nomes e prefixos das embarcações para efetuar uma denúncia à Capitania dos Portos. “Toda esta baderna é absolutamente proibida pois interfere negativamente no modo de vida das aves”, explicou ela. Naquele belo entardecer ficava claro para mim,  mais uma vez, que a ignorância transcende as classes sociais. . .
  • Segunda-feira – Retorno: No meio da manhã, pegamos a “voadeira” para regresso ao continente. Procurei, então concentrar-me em tudo de belo que eu havia presenciado; porém, quando nos aproximamos do Porto, um forte mau cheiro embrulhou-me o estômago. . . o mal-estar passou, mas o odor, ainda o sinto. . .

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Antonio RadiEngenheiro Agrônomo/Representante ComercialVer todas as publicações de Antonio Radi »

  1. Lúcio Gomes
    Lúcio Gomesjan 20, 2011

    Excelente depoimento. Utilizou as palavras de maneira incríveis.

    Parabéns Antonio pela publicação. Infelizmente, fico triste pela degradação ambiental, que hoje em dia, parece inevitável, pois acompanha, na maioria das vezes, a falta de conscientização das pessoas.

    Em outras vezes ou juntamente, com a pura e simples ganância do homem.

    Enfim, é uma triste realidade se observarmos atentamente, mas a grande maioria fecha os olhos para a realidade e prefere viver no mundo de fábulas.

    Como podemos mudar isso?
    Sim, faço minha parte, tento influenciar positivamente outras pessoas, tento lutar, mas nada parece sufuciente. Nada. Mesmo assim, continuo, dentro do que posso, fazendo tudo. Tudo para o bem.

  2. Antonio
    Antoniojan 23, 2011

    Prezado Lúcio:

    Agradeço tuas motivantes palavras. Espero poder encontrar outros comentários teus (elogiosos ou não) em futuros artigos.
    Você pergunta: “Como podemos mudar isso?” Lúcio, meu caro, talvez não possamos. . . mas isto não deve ser motivo para abstermo-nos da luta; ou será, então, que devemos travar somente as batalhas que sabidamente podemos vencer? Acredito que não. . .
    Meus votos de muitas felicidades (e também de muita persistência!) para você. . .

  3. Lúcio Gomes
    Lúcio Gomesjan 25, 2011

    Concordo plenamente Antonio. Devemos continuar lutando sempre!
    E com nossas ações, vamos influenciando outras pessoas a fazerem o mesmo, agir pelo bem, com consciência.

    Antonio, agradeço seus elogios e os retribuo.

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