Iara e o Etanol

Todos os dias publicamos novos conteúdos e conquistamos um número cada vez maior de usuários. A equipe do portal AMA agradece a todos os usuários que acessam constantemente este site, que já é uma referência nacional sobre preservação ambiental e desenvolvimento sustentável. E lembre-se, não basta apenas conhecer os problemas, é necessário agir! Cada um fazendo sua parte, de forma consciente, ajuda a melhorar o ambiente em que todos nós vivemos.

Iara e o Etanol

Há um conhecido mito brasileiro oriundo da região norte; trata-se de Iara, a Senhora das Águas. De acordo com a lenda, Iara atrai – com seu canto e com sua beleza – pescadores desavisados para o fundo dos rios amazônicos. Os poucos que conseguem sobreviver ficam loucos.

Como o canto de Iara, as locuções de alguns ambientalistas famosos também fascinam multidões. . .  quando os ouvimos, somos frequentemente transportados para um mundo onde a civilização conviverá em estável equilíbrio com a Natureza; onde a consciência ecológica  achar-se-á amplamente difundida e assimilada; onde os avanços tecnológicos mudarão nosso modo de vida para sempre.

Foi neste estado de encantamento que comecei a ler as idéias dos Sr. Ignacy Sachs. Para quem ainda não o conhece, apresento-o; economista (alguns preferem chamá-lo de “ecossocioeconomista”) foi o Sr. Sachs que ampliou o conceito de “ecodesenvolvimento” (mais tarde chamado de “desenvolvimento sustentável”) e, de quebra, cunhou o termo “Biocivilização”. . . mas o que é “Biocivilização”? Bom, de uma forma bastante resumida podemos dizer que é a economia baseada na tríade dos “Bs”: Biomassa, Biotecnologia e Biodiversidade.

Bem, Biodiversidade nem se discute sua importância; quanto a Biotecnologia há sérias controvérsias. . . e Biomassa. . . falemos um pouco da tal Biomassa.

Neste contexto, podemos dizer que Biomassa são vegetais, resíduos vegetais e resíduos animais que podem ser utilizados para a geração de energia. Nada de novo, não é? Engana-se, tem novidade sim. . . o Sr. Sachs destaca uma “vedete” no segmento dos biocombustíveis: o etanol celulósico, aquele produzido à partir de restos de culturas (palhas, bagaços) que hoje são descartados. Este etanol celulósico poderia, então, ser o grande “pulo do gato” dentro das novas tecnologias de aproveitamento da Biomassa. Poderia? Como assim? Explico já.

Matéria publicada no site www.power.inf.br informa que a legislação norte americana impõe limites para a produção de etanol a partir do milho. Por conta disso, existem atualmente 24 usinas de etanol celulósico em construção ou em planejamento nos USA, legal, né? Quase. . . até o momento nenhuma delas conseguiu demonstrar viabilidade econômica (ops! Olha a “Economia” aí de novo, gente!!!). Portanto, ninguém sabe se o produto estará disponível no curto prazo. No Brasil também há algumas iniciativas neste campo, mas tudo ainda em fase experimental. Mas, afinal, o álcool celulósico, no curto prazo, vai virar? Ora, claro que vai. . . basta para isso que o preço do petróleo suba à estratosfera e permaneça por lá.

E o etanol não celulósico? Bem, vamos a alguns números. O mundo consome cerca de 60 bilhões de litros de etanol/ano; este volume corresponde a 10% do total de combustíveis líquidos utilizados globalmente (600 bilhões litros/ano). Ainda segundo o site www.ambientebrasil.org.br (citando a Revista Veja de Março/2008) a previsão é de que o etanol chegue a substituir (apenas) 20% do total de combustíveis líquidos (120 bilhões de litros/ano). Bem, percebe-se que o etanol pode ajudar na redução do uso de combustíveis fósseis, mas está longe de, por si só, ser o salvador da pátria.

E aquela história da competição das espécies utilizadas para a produção de biocombustíveis com as utilizadas para a produção de alimentos? Bem, pelo menos no Brasil isto está longe de ser um problema; afinal a área plantada com cana em nosso país com o propósito de produção de etanol totaliza hoje apenas 1% do total de terras cultiváveis. Claro que com o aquecimento global – e a conseqüente redução na área de terras aptas para a semeadura de grãos – esta situação poderá mudar (a EMBRAPA elaborou um interessante e preocupante estudo a respeito do assunto).

Bom, se o etanol sozinho não pode dar conta do recado, que tal lançarmos mão de outras fontes de energia alternativa? Pois é, caiu-me nas mãos há pouco o livro intitulado Sustainable Energy – without the hot air (em uma tradução literal seria Energia Sustentável – sem o ar quente) escrito pelo britânico David JC MacKay.  No momento, só a versão original da obra está disponível a qual inicio agora a leitura. Qual o tom? Bem, vou reproduzir abaixo uma pequena parte do prefácio:

Estou preocupado em cortar as emissões de lero-lero no Reino Unido – lero-lero a respeito de energia sustentável.Todo mundo diz que banir os combustíveis fósseis é importante e somos todos encorajados a ‘fazer a diferença’, mas muitas coisas que supostamente fariam a diferença não estão contribuindo positivamente.

Emissões de lero-lero estão em alta no momento porque as pessoas manifestam-se emocionalmente e ninguém fala de números. Ou se falam de números, estes são escolhidos para parecerem grandes, causar impacto e somar pontos na argumentação, mais do que para colaborar com uma discussão racional.

Esta é uma conversa centrada em números. O objetivo é guiar o leitor para ações que realmente façam a diferença e para políticas que venham a somar.”

David JC MacKay

Estou curioso para saber o que o Sr. MacKay tem a dizer. . . volto ao assunto posteriormente, ok?

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Antonio RadiEngenheiro Agrônomo/Representante ComercialVer todas as publicações de Antonio Radi »

  1. Maurício Gomide
    Maurício Gomidejan 02, 2010

    Caro Antonio,
    Parece que você ainda não tirou suas conclusões a respeito de combustíveis. Os pensadores ficam imaginando modos de aumentar essas fontes de energia. Isso me faz lembrar da história de uma pessoa que criava uma cobra venenosa. A cada ameaça de mordida, ela era alimentada e crescia. Ainda não há final para essa história, mas a cobra está enorme e continua a ser alimentada. A cobra, no caso concreto, é a população mundial. Sem diminui-la por controle natal, não teremos solução para todos os problemas decorrentes. Ou, então, como já expuz: que se mate os motores.

  2. Antonio
    Antoniojan 08, 2010

    Perfeita observação, caro amigo Maurício.
    Comparei as “soluções” propostas por vários ambientalistas com um ser mitológico justamente porque elas, em realidade, não são “soluções” e sim paleativos.
    O que queremos afinal? Evitar ou apenas postergar o colapso civilizacional?
    Quanto à questão do controle populacional, bem, isto poderia ser uma solução. . . o problema é que ela bate de frente contra enormes barreiras (éticas, morais, econômicas, religiosas e até instintivas). Como implantar um programa destes, a nível global, de forma eficaz, pacífica e duradoura? Desculpe-me, Maurício, mas este parece-me outro “canto de sereia”.

  3. Maurício Gomide
    Maurício Gomidejan 08, 2010

    Sobre controle populacional, se não o fizermos racionalmente agora, a Natureza o fará brevemente de modo radical, aético e caótico. E essa não constitui uma das soluções; é a única. Única justamente por ser o homem o agente destruidor do meio ambiente.

  4. Antídio S.P. Teixeira
    Antídio S.P. Teixeirajan 10, 2010

    Caros amigos:
    Todos os problemas sócioambientais e econômicos
    que se tem discutido até agora, foram, e continuam sendo causados pela produção de bens de consumo dependentes de fontes energéticas poluentes. Entendam: apesar de, cerca de metade da superfície terrestre ser inundada, diariamente por energia luminosa limpa do Sol, esta é dispersa e não útil como instrumento de trabalho; é necessário concentrá-la para elevá-la a níveis em que possa ser utilizada com força motriz; e isso depende da aplicação de recursos, muitas vezes, de valor financeiro superior ao valor da energia obtida. Os combustíveis fósseis, concentrados energéticos que foram produzidos pelo mundo vegetal durante bilhões de anos, nenhum trabalho custou ao homem senão extraí-los e refiná-los. Porém, sua utilização tem um custo que só veio ser considerado pelo mundo científico há poucas décadas depois de ter criado uma dependência social de difícil substituição sem grandes sacrifícios.
    Considerem que toda matéria orgânica, em princípio, é um combustível; porém, para utilizá-la, parte da energia nela contida é aplicada no processo de condicionamento para sua utilização. Exemplo: a hulha e o petróleo são compostos com altos teores energéticos e, proporcionalmente, são pequenas as aplicações energéticas no seu processo de exploração, transporte, refino, etc., o que permite a obtenção excelentes saldos positivos, se não considerados os danos ambientais irreversíveis que vêm se acumulando há mais de dois séculos. Já os combustíveis renováveis têm custo de obtenção muitas vezes mais elevado. Embora toda estrutura orgânica da planta seja combustível, aproveitam-se, apenas, as partes de mais fácil obtenção, comercialização e utilização, desprezando-se grandes teores energéticos nos resíduos. Vejam: os madeireiros desmatam florestas para extrair as madeiras nobres; os carvoeiros transformam a biomassa restante em carvão, que é aproveitado nas indústrias, enquanto os pecuaristas recebem as áreas nuas para o plantio de capim. Seria um processo equilibrado se os governos não proibissem a comercialização do carvão vegetal, o que leva os pecuaristas a queimarem, sem nenhum proveito econômicos resíduos tão ricos em energia aumentando a poluição ambiental. O mesmo dizemos das canas: as destilarias aproveitam, apenas, a energia contida nos açúcares e, algumas, já aproveitam a energia contida no bagaço, desprezando a das palhas que são queimadas ao ar livre sem nenhum proveito social. Resumindo: a transformação da celulose em combustíveis automotivos terão um custo muito mais elevado e menos produtivo do que a sua utilização como combustível direto. É o que pensa este observador.
    Sobre o controle da natalidade, considero uma medida complementar, uma vez que é mais urgente a conscientização de redução do consumo supérfluo que representa maior demanda de energia oriunda de fontes poluentes.

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