Lição de índio

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Lição de índio

 

  Washington Novaes, laureado nacional e internacionalmente, é um denodado ambientalista e indigenista, muito respeitado por seus trabalhos nessas áreas. Entendemos ser bastante oportuna a divulgação de um de seus artigos sobre a organização social indígena brasileira.

LIÇÃO DE ÍNDIO

 Washington Novaes

  “Não são os índios que precisam de nós, e sim nós que precisamos dos índios. Por quê? Se você olhar bem, são eles que conhecem a diversidade biológica, de modo que nós dependemos deles, e não o contrário. Por que essas culturas são capazes de conviver com o meio ambiente, e nós não? Temos que aprender com elas. Se você olhar para essas culturas indígenas irá encontrar algumas direções das grandes utopias humanas, a saber:

1.      A sociedade sem Estado e sem poder. Um chefe indígena nação tem poder, não manda em ninguém, não dá ordens; ele é o representante da cultura, da tradição, da experiência, é o que sabe mais, e por isso a chefia é um posto hereditário, porque é preciso ir aprendendo ao longo da vida… o filho vai aprendendo com o pai.

2.      A propriedade da terra é coletiva, ninguém é dono da terra; cada um tem sua roça, mas ninguém é dono da terra.

3.      São sociedades em que a informação é aberta: o que um sabe, todos podem saber, e ninguém se apropria da informação para transformá-la em poder político ou econômico.

   Fechadas em sua própria cultura, são sociedades onde nem sequer existe dinheiro. Então, nessas sociedades, em que a propriedade é coletiva, a informação é aberta e o chefe não tem poder, é impossível haver repressão organizada (as políticas), e sem repressão organizada é impossível a dominação de um indivíduo por outro ou de um grupo por outro – todos são igualmente livres. E isto é uma coisa extraordinária! Ninguém dá ordens para ninguém – é uma espécie de democracia do consenso.

   São sociedades em que não há nenhuma das grandes mazelas das nossas sociedades: não há prisão, não há hospício, bordel, orfanato, asilo de velhos, de modo que deveríamos olhar essas culturas com outro olhar, com uma outra possibilidade.  Enquanto estamos nos arrastando para tentar fazer a democracia da maioria, eles estão lá na frente, vivendo a democracia do consenso.”

Sobre

Maurício Gomide83 anos, pensador e escritor ambientalista. Reside atualmente em Belo Horizonte(MG), colaborando em diversos blogs ambientalistas. BLOG: http://planetafala.blogspot.comVer todas as publicações de Maurício Gomide »

  1. Antídio S.P. Teixeira
    Antídio S.P. Teixeiraset 29, 2009

    Este estilo de vida primitivo exige grandes espaços de terra mantida em estado natural para satisfazer a necessidades tão singelas. Será que nosso planeta disporia de espaço suficiente para atender à humanidade se o adotasse?

  2. Antonio
    Antonioset 30, 2009

    Quando Cabral aportou por estas bandas, viviam em nosso país alguns milhões de indígenas. . . quantos? Não se sabe ao certo; os números oscilam entre 5 e 15 milhões de aborígines. Há, no entanto, um relativo consenso de que seriam entre 6 e 7 milhões.
    Como todos sabem, os povos indígenas conheceram seu holocausto a partir do contato com os europeus. Nossos nativos foram quase totalmente dizimados por guerras, chacinas, doenças e escravidão. Somente a partir de meados do século passado, com a proteção governamental, é que seus números voltaram a crescer (ou pararam de cair).
    O que os “civilizados” cidadãos do Velho Mundo fizeram com os “selvagens” índios do Novo Mundo choca qualquer um que ainda guarda dentro de si um pouco de sensibilidade. Sobre o assunto deixo aqui uma sugestão para leitura: “O Povo Brasileiro”, escrito pelo antropólogo Darcy Ribeiro (Companhia das Letras, 2006).
    Talvez por isso – pelo remorso – muitas pessoas, especialmente os chamados indigenistas, falam dos índios com uma admiração que beira a idolatria.
    Ora, mas as sociedades indígenas tinham também as suas mazelas; guerreavam entre si, executavam prisioneiros (em alguns povos isto era feito em rituais de antropofagia) e escravizavam os vencidos.
    Do ponto de vista ambiental, também os índios faziam lá os seus estragos; por exemplo, o termo Tupi “coivara” refere-se a queima de restos vegetais para “limpeza” do terreno e posterior plantio. Esta técnica ainda é comum entre pequenos agricultores em vários pontos de nosso país.
    Os danos ambientais provocados pelos indígenas eram pequenos apenas porque seu contingente populacional era modesto e sua tecnologia bastante limitada quando comparada à nossa.

    Um abraço

  3. mgomide3
    mgomide3out 02, 2009

    Caros amigos Antídio e Antonio,
    O cosmo é resultante de um equilíbrio de energias. A vida, como parte desse todo, também existe em função do equilíbrio de forças. O meio ambiente da Terra é conseqüência de um contrabalanço de forças vitais, onde atuam predadores e presas. É construído em função do interesse da vida, sendo a biodiversidade uma das suas conseqüências. E os índios se inserem nessa existência escalar.
    Realmente os índios guerreavam entre si. Com motivos ou sem motivos. Nunca executavam guerras com objetivos de posse territorial ou para extermínio. Eram lutas de morte em que ambos os lados perdiam diversos guerreiros. Eles não sabiam, mas essas guerras eram salutares para o meio ambiente, pois evitavam que aumentasse a densidade demográfica e suas trágicas conseqüências, inclusive com a diminuição da área necessária ao fornecimento de alimentação. Eram, assim, ações normais de manutenção do equilíbrio demográfico.
    Face às conseqüências benéficas acima, as “coivaras” não prejudicavam o meio ambiente. Ante a imensidão das matas disponíveis, os índios derrubavam pequena área, faziam a limpeza e plantavam as suas lavouras de subsistência. Cultivavam esse sítio por alguns poucos anos e a abandonavam, derrubando outra área não contígua para a mesma prática. Com isso, a pequena área deixada, depois de certo tempo se recuperava completamente, ajudada pela fauna e flora adjacente.
    Quanto aos procedimentos que, a juízo de nossa cultura, são aéticos, devemos entender que o certo e o errado são relativos à cultura de cada povo. Uma cultura não tem condições de julgar outra.
    Essas nossas observações não intentam contradizer os comentários dos dignos colegas, mas apenas aduzir algumas facetas esclarecedoras segundo nosso pensamento.

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