“Nos tornamos uma praga. . .”

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“Nos tornamos uma praga. . .”

Caríssimos leitores eventuais:

Abaixo reproduzo parte da entrevista concedida pelo britânico John Gray à Revista Época por ocasião do lançamento de seu livro intitulado “Cachorros de Palha” (Ed. Record); será que as catastróficas previsões do Sr. Gray irão se concretizar?

ÉPOCA – Por que senhor afirma que o homem não é mais um habitante da Terra, mas um invasor do planeta?
John Gray – A espécie humana expandiu-se a tal ponto que ameaça a existência dos outros seres. Tornou-se uma praga que destrói e ameaça o equilíbrio do planeta. E a Terra reagiu. O processo de eliminação da humanidade já está em curso e, a meu ver, é inevitável. Vai se dar pela combinação do agravamento do efeito estufa com desastres climáticos e a escassez de recursos. A boa notícia é que, livre do homem, o planeta poderá se recuperar e seguir seu curso.
ÉPOCA – O senhor afirma que o ser humano não é tão diferente dos demais animais, e tampouco superior. Mas o desenvolvimento tecnológico, o avanço da ciência e da cultura não são provas de uma superioridade?
Gray – Os seres humanos diferem dos animais principalmente pela capacidade de acumular conhecimento. Mas não são capazes de controlar seu destino nem de utilizar a sabedoria acumulada para viver melhor. Nesses aspectos, somos como os demais seres. Através dos séculos, o ser humano não foi capaz de evoluir em termos de ética ou de uma lógica política. Não conseguiu eliminar seu instinto destruidor, predatório. No século XVIII, o Iluminismo imaginou que seria possível uma evolução através do conhecimento e da razão. Mas a alternância de períodos de avanços com declínios prosseguiu inalterada. Regimes tirânicos se sucederam. A história humana é como um ciclo que se repete, sem evoluir.
ÉPOCA – Pelo que se depreende de suas teses, o senhor não duvida da noção de progresso, apenas acredita que o homem é falho e incapaz de controlá-lo. É isso mesmo?
Gray – Não acredito que haja avanços em ética e política. Temos momentos melhores e piores, mas em geral a História humana é um ciclo intermitente de anarquia e tirania. Trazemos em nosso DNA a inclinação para a autodestruição e somos incapazes de mudar. Nesse sentido, não há progresso. A atual Guerra do Iraque mostra isso. Os Estados Unidos não eram a nação mais desenvolvida do mundo? No entanto, não puderam impedir a tortura de prisioneiros em Abu Graib. Se alcançamos estágios avançados por um lado, a todo momento perdemos essas conquistas.
ÉPOCA – Há esperanças de que esse quadro se modifique?
Gray – Pode haver progressos em alguns lugares do mundo, em certos momentos. Mas não haverá uma mudança efetiva, generalizada. Observe que mesmo as convenções de guerra existentes não são respeitadas. Em termos de desafios ambientais, a situação ainda é pior. As mudanças climáticas afetam o mundo inteiro, ameaçam toda a civilização.
ÉPOCA – Não há nada a ser feito?
Gray – O que temos a fazer é trabalhar com objetivos modestos, com expectativas mais baixas e realistas. Não esperar pela salvação do planeta, mas buscar uma qualidade de vida melhor, criar condições para retardar o declínio. Isso é possível.
ÉPOCA – O senhor não estaria sendo muito cético levando-se em conta os movimentos de defesa do meio ambiente, ações pacifistas e outros que tentam reveter esse quadro?
Gray – Duvido muito que consigam. Sou descrente de que será feito algo realmente eficaz para combater o aquecimento global. A demanda de combustível fóssil vem aumentando a um ritmo de 1,9% ao ano. A rápida industrialização da China só agrava esse problema. Não quero dizer com isso que não se deva fazer nada. Cada nação pode perfeitamente contribuir de alguma forma. Mas os esforços ainda seriam tímidos e há poucas razões para otimismo quanto a uma reversão radical do quadro.

Fonte: Revista Época – Edição 397 – Dez/05

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Antonio RadiEngenheiro Agrônomo/Representante ComercialVer todas as publicações de Antonio Radi »

  1. Felipe Ziliotti
    Felipe Ziliottiout 17, 2009

    A argumentação de Gray segue sua linha catastrófica de sempre. Em seu “Falso Amanhacer” argumentou sobre aspectos muito interessantes relativos a ornização da sociedade, o que em especial me chamou a atenção foi ter colocado o sistema de reprodução capitalista como escravista, onde nós – employees – somos meros escravos, que num futuro será análisado dessa ótica histórica. Achei aquele argumento interessante e pesado, mas juntando com essas e outras argumentações apocalípiticas do sr. Gray, temo não lhe dar tanta credibilidade.

  2. Antonio
    Antonioout 20, 2009

    Caro Felipe:

    Muito vos agradeço pelo comentário. Tenho também a minha opinião a respeito de Gray e, oportunamente, publicarei-a na forma de comentário.
    Um abraço.

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