O homem sem seleção

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O homem sem seleção

  

   A sábia Natureza estabeleceu no hábitat planetário um mecanismo de desenvolvimento e adaptação favorável à vida biológica extremamente inteligente, lógica e eficiente. Dessa forma, à medida que as condições ambientais se alteram, automaticamente a elas se ajustam  a morfose, fisiologia e forma societária dos seres viventes. Tem ela ainda a virtude de, como conseqüência das alterações precedentes, moldar, ajustar e selecionar o caráter da espécie, seguindo os mesmos princípios. Para a Natureza, o objeto de seus cuidados não é o individuo em si, mas a espécie a que ele representa. Essa seletividade, estabelecida como resposta às alterações dos meios essenciais de vida, é um recurso natural para que seja preservada a vida na Terra. Tudo é feito pela alta sensibilidade da grande molécula mestra, responsável por guardar e gerenciar a energia vital, o cromossomo. Pelo seu grande poder de captar as alterações ambientais e fazer os ajustes conseqüentes, pelo processo da seletividade, teve a capacidade de transformar um simples verme marítimo em um humano terrestre, capaz de ler e compreender este artigo. Fazemos realce neste momento de que a seleção é um processo demorado, doloroso, triste, politicamente incorreto e injusto numa avaliação cultural humana, mas – frisamos – absolutamente necessária. Necessária para o fim colimado: preservação da vida sadia.

   Na observação da flora e fauna naturais, sempre o conjunto social da espécie se constitui de indivíduos sadios, íntegros e com uniformidade biológica característica. Não se pense que nasçam com tal perfeição. Muitos são gerados, como jogo da evolução, com anomalias funcionais que  impedem o normal ato de viver da espécie. Outros se acidentam e perdem a autonomia. Nesses casos, são simplesmente deixados a perecer porque incapazes de sobreviver com seus próprios recursos. É a seleção agindo.  

   Após a invasão e apossamento do Brasil pelos Portugueses, em 1500, nossos indígenas se apresentavam todos sadios. As crianças desses povos que nasciam com alguma deficiência eram jogadas no rio por suas mães, obedientes aos resquícios instintivos de seleção, posteriormente eliminados pelas culturas racionais dos brancos invasores. Conta-nos a História que, até recentemente, em muitos povos não havia piedade para com os maus, segundo seus próprios julgamentos.

   Com a rebeldia dos primeiros hominídeos pensantes às determinações do instinto, sobrepujando-o com o poder do intelecto, os humanos começaram a perverter as normas naturais de seleção, com reflexos maléficos na composição da sociedade humana moderna.

   Hoje, as conseqüências para a humanidade da abolição desse sábio mecanismo gerou situações anômalas e contraproducentes. Diariamente, vê-se situações concretas de a sociedade gastar enormes recursos médicos para salvar a vida de um malfeitor acidentado. Mantêm-se, sob custos elevados, uma estrutura carcerária para hospedar indivíduos anti-sociais, criminosos, pervertidos, verdadeira escória genética. E ainda se lhes dá o direito de se reproduzirem. E são esses os que mais proliferam. Os homens decentes, corretos, sociais, geralmente restringem suas proles a poucos filhos. O percentual dos maus de todas as espécies, presos ou soltos, está crescendo em comparação com os bons. Dessa forma, a nossa atual sociedade não tem um caráter uniforme, onde não há condições de imperar a honestidade, a verdade, a honradez, a justiça e a segurança mínima.

   A atual sociedade mundial é uma mistura tão heterogênea que os vícios desagregativos vão contaminando os de bom caráter pelo contágio de vivência e cultura de ganância, tornando a sociedade humana um caldo anti-ético, anti-seletivo, sem qualificação definida e tolhida em sua própria autodefesa.

   O pior é que a nossa sociedade cresceu um absurdo em termos numéricos, representando a fatia dos anti-sociais um fator decisivo na espoliação e degradação do meio ambiente. Isso impede também que os esforços dos ambientalistas em esclarecer e conscientizar a humanidade sejam inócuos pela não capilaridade desse insensível  conjunto.

   As considerações deste artigo poderiam prosseguir, apresentando as deduções lógicas. Mas encontraríamos adversa resistência por parte de alguns leitores – sem sequer merecer uma análise filosófica – proveniente do remanescente instinto de preservação da espécie. No entanto, para um leitor atento e com capacidade dedutiva, ele próprio terá condições de completar, mentalmente, a parte final deste artigo.  

       

      

Sobre

Maurício Gomide83 anos, pensador e escritor ambientalista. Reside atualmente em Belo Horizonte(MG), colaborando em diversos blogs ambientalistas. BLOG: http://planetafala.blogspot.comVer todas as publicações de Maurício Gomide »

  1. Antídio S.P. Teixeira
    Antídio S.P. Teixeirafev 25, 2009

    “G.” Maurício:
    Tudo indica que estamos chegando ao mesmo denominador. Este meu comentário a seguir, com boa vontade, pode ser considerado uma extensão de seu lúcido artigo acima.
    A seletividade é o instrumento básico da evolução; sem ela, esta se estagnará ou se desviará de seu caminho natural para desastres imprevisíveis. Desde os elementos simples componentes fundamentais da matéria até os mais evoluídos dos animais, os homens, seguem esta regra, sem o que pagarão com a degeneração de suas próprias espécies, e podendo chegar à sua própria extinção.
    Agricultores primitivos, selecionavam os melhores grãos de suas colheitas; não para o consumo familiar ou venda por melhores preços, mas, como sementes para melhorar a qualidade das safras seguintes. Pecuaristas ou avicultores, orientavam-se pela mesma cartilha: reservavam os exemplares mais produtivos como reprodutores para, assim, melhorarem a qualidade de seus plantéis. Sem a intervenção humana, esta seletividade ocorre em todos os ecossistemas: a vegetação rasteira e de curto ciclo, sucumbe em baixo das florestas onde enriquecem a terra com seus resíduos que servirão de nutrientes, não só para suas espécies, assim como para as gigantescas árvores que as cobrem. Também, peixes e outros animais menos aptos para vencer a corrida da vida, sucumbem como alimento daqueles que estão mais perto da linha da reprodução para gerarem descendências mais capacitadas para acompanhar a evolução do meio ambiente global.
    Grande parte da humanidade foi seduzida para se desviar de seu caminho pedregoso natural, com ofertas de amplos e confortáveis atalhos pavimentados, mas que, somente agora, depois de uma jornada de mais de dois séculos, alguns poucos representantes da nossa espécie, começam a perceber a dimensão da catástrofe que foi semeada para a colheita de nossos próprios herdeiros.
    A degeneração começou no meado do século 18 quando se começou a substituir a inteligência criativa humana e a força animal no trabalho produtivo por mecanismos movidos por energia gerada com a queima de matéria fossilizada. Por ficarem, aparentemente mais baratos, por se desconhecerem os custos ambientais futuros, os detentores destes revolucionários processos de produção necessitavam de crescimento contínuo de consumo para seus produtos a fim de garantir a manutenção crescente de seus lucros. Daí o nascimento do consumismo de supérfluos. Uma das saídas, era aumentar o número de consumidores no Planeta. Por isso, direta ou indiretamente, apoiaram movimentos sociais como a abolição da escravatura; religiosos, com o as pregações divinas de proteção ao nascimento em quaisquer circunstâncias; e públicos com legislações protecionistas inflexíveis, a fim de ampliar um mercado potencialmente capacitado para consumir por preços mais baratos os produtos fabricados em suas máquinas automatizadas. Sem trabalho remunerado, os ex-trabalhadores ficaram sem recursos para consumir legalmente; e, para sobreviver, disputam, até hoje, espaço com os governantes que agem em nome de leis que favorecem, apenas, as minorias dominantes. Quando estas leis favorecem as maiorias necessitadas, nunca os recursos existentes são suficientes e a cobrança deles gera violentas contendas. No nosso artigo Energia, a essência de tudo, (neste blog), destacamos que antes da Revolução Industrial, o processo seletivo natural era muito mais eficiente, quando as mulheres chegavam a ter mais de vinte filhos; porém, grande parte deles, os menos aptos, sucumbia antes da adolescência, ficando a reprodução da espécie por conta dos sobreviventes mais aptos. O processo seletivo entre os índios, como cita o articulista, é válido somente no que se refere à saúde, uma vez que as condições climáticas favoráveis à vida e os grandes espaços ocupados, não os pressionavam a maior desenvolvimento intelectual. Já os gregos deram exemplo mais significativo de bons resultados da seletividade: além das admiráveis formas físicas, (a beleza grega), há cerca de três mil anos, quando a população mundial era de alguns milhões de habitantes, legou-nos o vasto cabedal nas ciências, nas artes e na filosofia, o que nos deixa pasmados diante da mediocridade do pensamento humano atual, emanado de uma massa composta por 6,6 bilhões de habitantes. Nos artigos que tenho publicado, aponto sempre como primeiro passo para o reequilíbrio sócio-ambiental, a redução da carga populacional. Não bruscamente com matanças maciças através de guerras e nem pelas necessidades generalizadas como ocorre com os fugitivos da fome de países pobres, impedidos de desembarcar no litoral dos países que enriqueceram saqueando os bens naturais das terras dos fugitivos, e que, agora, são abandonados à deriva em suas frágeis embarcações para que morram silenciosamente em alto mar. Para reencontro das condições necessárias ao desenvolvimento da vida, tenho sugerido a conscientização popular da necessidade de se adotar rígido combate ao consumo supérfluo seguido de redução da natalidade através de rigorosa seleção de embriões, já que a tecnologia moderna oferece esta possibilidade. Tudo em nome da sobrevivência da espécie humana e das outras que a sustenta.

  2. mgomide4
    mgomide4fev 25, 2009

    Caro Antídio,
    Realmente, o excesso populacional humano constitui o fator detonante de todo o desequilíbrio ecológico por que passa o nosso planeta. Administrativamente falando, é fácil resolver-se o assunto: “remova-se a causa”. Eis aí o calcanhar de Aquiles. Por isso e ante a urgência de medidas efetivas, clamamos pela necessidade de ser criado o governo mundial.

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