Projeto Genoma Humano

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Projeto Genoma Humano

Notícia publicada no início deste mês pela Folhapress – agência de notícias do Grupo Folha (de São Paulo) –  traz em seu bojo a frustração – ainda que disfarçada – de muitos biólogos moleculares adeptos do chamado “determinismo genético”.

Como o próprio termo sugere, o “determinismo genético” preconiza que nosso genótipo é responsável por tudo o que somos, seremos ou teremos um dia. Personalidade, transtornos, comportamentos, tamanho do buraco do nariz, doenças, habilidades, talentos, etc estaria tudo lá, previamente gravado e definido em nossos genomas. Biólogos moleculares “deterministas” adoram chamar o genoma (conjunto de genes presentes em um organismo) de “Livro ou Código da Vida”.

O ápice da glória dos “cientistas deterministas” ocorreu em 2000 quando as revistas Science e Nature noticiaram, com grande estardalhaço, a publicação de uma sequência-rascunho contendo 90% do genoma humano. Em 2003, ainda em clima de muita euforia, cientistas celebraram o sequenciamento de 99% de nosso genoma.

Bem, e daí? Daí que passados dez anos desta façanha científica, está muito mais fácil – e barato – para um cidadão comum ter seu genoma “decifrado”. O problema é que, uma vez de posse destes dados, os doutores não sabem o que fazer com eles.

Na matéria supra citada, lê-se: “O problema é que doenças como a fibrose cística,  causadas pela mutação de um único gene, são raras e pouco importantes para a saúde pública. Muito mais difícil é esmiuçar a contribuição genética para doenças comuns como diabetes, câncer e problemas cardiovasculares”. O grifo é meu, tá?

Mas os “deterministas” não dão o braço a torcer; afinal muita grana foi investida no PGH (Projeto Genoma Humano). A bióloga da USP, Lygia da Veiga Pereira justifica – “A tecnologia de sequenciamento do DNA avançou muito mais rápido do que nossa capacidade de interpretar os dados.” – e aponta a solução: “Agora é preciso que um exército de cientistas mundo afora estude cada pedaço dos dados que já temos do genoma, num trabalho menos glamuroso, mas muito importante”.

Pois é, Dra. Lygia, a senhora deve saber muito bem que o “exército” convocado para esta “nobre” tarefa tem cada vez menos “soldados” em suas fileiras. . . e por que?  A explicação está na Epigenética. . . isto mesmo, meus caros leitores, e ainda vamos ouvir falar muito neste termo…

A Epigenética estuda a interferência de fatores outros, que não somente os genes, na transmissão de características biológicas.  Como escreveu Fritjof Capra:

“Quando as células se dividem no desenvolvimento do embrião, por exemplo, cada nova célula recebe exatamente o mesmo conjunto de genes e, não obstante, as células especializam-se de maneiras muito diversas, tornando-se células musculares, células sanguíneas, células nervosas, etc. Há muitas décadas, os biólogos desenvolvimentistas concluíram deste fato que os tipos de células são diferentes não porque contém genes diferentes, mas porque em cada um deles os genes ativados são diferentes.”

E continua: “As pesquisas subseqüentes mostraram, porém, que o ‘programa’ responsável pela ativação dos genes não reside no genoma, mas na rede epigenética da célula”.

Eu sei que o artigo está ficando demasiado comprido (e, talvez, bastante chato) mas deixa eu citar só mais uma fonte; trata-se de uma matéria publicada na Revista Veja, edição 2109 de Abril de 2009. Nela é citado um interessante estudo com 40 pares de gêmeos univitelinos. Apesar de nascerem com genomas idênticos, gêmeos com idades mais avançadas apresentam significativas diferenças em seus genomas, em especial se os irmãos cultivam hábitos de vida diferentes. A matéria, na íntegra, pode ser lida através do link abaixo:

http://veja.abril.com.br/220409/p_086.shtml

Pois é, pessoal. . . aquela suposta “simplicidade” existente na transmissão (que se pretendia linear) de caracteres hereditários – gene A produz a enzima B que vai compor a proteína C – não existe; processos celulares muito mais complexos estão envolvidos nesta parada e, verdade seja dita, ainda sabemos muito pouco sobre eles. Está aí o porquê do título da matéria jornalística que citei no início do artigo: “Aos dez anos, genoma está longe das clínicas”. E, pelo jeito, vai ficar longe por muito tempo ainda. . .

Bem, Antonio – alguém poderia pensar –  interessante, coisa e tal, mas cadê o tema ambientalista do artigo? Ora, diria eu, já estamos comendo (nós, os bovinos, os suínos,as aves) soja transgênica já faz algum tempo. . . agora começamos também a comer milho transgênico (nós, os bovinos, os suínos, as aves). . . e muitos outros vegetais trazendo esta tecnologia estão a caminho, frutos de uma acelerada corrida para o patenteamento de genes . Já que conhecemos tão pouco a respeito dos complexos mecanismos envolvendo o funcionamento dos genes, vocês não acham, digamos, arriscado esta troca frenética de material genético entre espécies diferentes? Bom, eu acho arriscado pacas; e, finalizando, cito Capra novamente:

“A modificação genética de plantas cultiváveis é feita com uma pressa incrível, e as plantas transgênicas são cultivadas em larguíssima escala sem que se façam pesquisas adequadas acerca dos seus efeitos a curto e a longo prazo sobre os ecossistemas e a saúde humana. Essas plantas transgênicas, desconhecidas e potencialmente perigosas, estão se espalhando agora pelo mundo inteiro e criando riscos irreversíveis.”

P.S.: Os textos de Fritjof Capra foram extraídos do livro “As Conexões Ocultas” (ed. Cultrix)

Sobre

Antonio RadiEngenheiro Agrônomo/Representante ComercialVer todas as publicações de Antonio Radi »

  1. Maurício Gomide
    Maurício Gomideabr 18, 2010

    Caro Antonio,
    Ficamos muito grato pela bela aula que nos proporcionou sobre genética. Agora, estamos sabendo o tamanho da estupidez de nosso governo em aprovar o cultivo de sementes genéticamente modificadas. Li um livro de médico norte americano, especialista em células, que o núcleo gerenciador (e, portanto, misterioso) não está exatamente no genoma, mas na membrana, como você cita, influenciando a epigenia.
    A Natureza é sábia. Ela fez diversas alterações fenotípicas através do eficiente sistema de mutação/adaptação/evolução. E um dos requisitos para isso foi o longuíssimo tempo necessário. Milhões de anos. Mas o “sábios” de hoje querem efetuar essas alterações a 1.000 k/h, perseguindo lucro imediato. Isso é mais um sinal de fim de História, infelizmente.

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