A Era de assaltos

Todos os dias publicamos novos conteúdos e conquistamos um número cada vez maior de usuários. A equipe do portal AMA agradece a todos os usuários que acessam constantemente este site, que já é uma referência nacional sobre preservação ambiental e desenvolvimento sustentável. E lembre-se, não basta apenas conhecer os problemas, é necessário agir! Cada um fazendo sua parte, de forma consciente, ajuda a melhorar o ambiente em que todos nós vivemos.

A Era de assaltos

 

 

 

      Já tivemos
o Período Jurássico, a Era Glacial, o Século de Péricles, a

 

Época Medieval, a
Dinastia Carolíngia, a moda do chapéu; agora estamos

 

nos tempos modernos: a Era
dos Assaltos.

 

       Essa   ação 
violenta sempre existiu nas relações informais dos

 

humanos, mas
atualmente alastrou-se potencialmente, institucionalizando-

 

se no  país, naturalmente com o beneplácito dos
governos. A criatividade

 

dos valentes partidários da força bruta chega ao ponto
de, aparentemente,

 

inverter o objetivo da ação, oferecendo vantagens e
benefícios às vítimas,

 

numa demonstração eloqüente da eficiência da psicologia
aplicada,

 

manipulada para fins de enriquecimento.  

 

       Num dia da
semana passada, fui assaltado. Estava 
andando

 

tranqüilamente no centro da cidade, quando se aproximou um
cidadão

 

muito bem vestido, bem penteado, usando terno com talho de última

 

moda,
gravata de seda, sapatos bico fino e bem engraxados, numa

 

aparência geral de
figurino de revista ou manequim de loja. Abordou-me,

 

pedindo licença para me falar,
empregando palavras polidas e com

 

entonação educada. Manifestou-se mais ou
menos assim:

 

      
Cavalheiro, permita-me merecer sua atenção por um momentinho.

 

Você não está
vendo, mas estou lhe apontando uma arma engatilhada,

 

como pode concluir pela
posição da minha mão no bolso do paletó. Peço

 

apenas que não se assuste,
mantenha a calma e controle, que tudo ficará

 

bem para você. Tenho uma ótima proposta
a lhe fazer. É meu desejo que

 

me passe todo o dinheiro, créditos a receber,
direitos, documentos,

 

relógio, anéis e demais bens que estejam em seu poder.
Além desses

 

bens, você possui outro muito valioso, mas que para mim não vale
nada:

 

sua vida. Ela está pendente apenas pela mola que aciona o cão de minha

 

arma. Preste bastante atenção, que lhe vou fazer uma proposta muito

 

atrativa.
Com um simples pagamento de R$10,00, de livre e espontânea

 

vontade, você fica
inteiramente desobrigado deste e de qualquer outro

 

assalto de minha parte.
Quero realçar que a vantagem para o cavalheiro é

 

muito grande, pois fará uma
grande economia e terá, inteiramente grátis,

 

um seguro de vida garantido pela
minha pistola.

 

       Paguei,
fiquei muito satisfeito, fiz um grande negócio, continuo vivo e

 

livre para
registrar fatos da Era dos Assaltos.

 

       Mas
não relatei os pormenores do acontecido. Naqueles momentos de

 

aflição tive uns
instantes de reflexão e mantive diálogo com o personagem.

 

Perguntei por que não
tinha rosto.

 

       — Não
tenho individualidade; estou aqui agora, mas posso estar em

 

qualquer lugar ao
mesmo tempo. Possuo milhares de réplicas no país às

 

quais o povo ingênuo chama
de agência.

      

       Desconfiado,
quis saber seu nome.

 

       — Meu nome
é genérico. Todos me conhecem, mas ninguém me

 

conhece. O povo me chama de Banco,
mas não sou banco. Sou um

 

assaltante moderno. Até breve!

 

       Aliás,
mudando de assunto, ultimamente os Bancos estão oferecendo

 

uma grande vantagem
aos seus usuários. Com uma simples contribuição

 

fixa mensal – digamos de
R$10,00 – desobrigam-nos  do pagamento

 

daquele rosário de tarifas que o Banco Central autorizou.

 

       É aquela velha
questão:

 

— Você quer perder uma mão para não perder o braço?

 

— Quero sim, senhor!

 

 

 

      

 


Sobre

Maurício Gomide

83 anos, pensador e escritor ambientalista. Reside atualmente em Belo Horizonte(MG), colaborando em diversos blogs ambientalistas.
BLOG: http://planetafala.blogspot.com

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