

A polêmica transposição do Rio São Francisco
Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007
Categoria(s): Biodiversidade, Meio Ambiente, Notícias, Preservação, Recursos naturais
|-> Publicado por: Maurício Machado
Movimentos sociais pedem diálogo sobre transposição do Rio São Francisco
Clara Mousinho
Da Agência Brasil
Cerca de dez caravanas de vários estados chegam hoje (18) a Brasília para um protesto contra a transposição do Rio São Francisco.
São integrantes de 30 movimentos sociais que apóiam a greve de fome de dom Luiz Flávio Cappio, que chega ao 22º dia. O religioso pede a suspensão das obras no rio.
O padre Antônio Pereira, pároco da Catedral da Barra (BA), cidade da arquidiocese de dom Cappio, disse que a manifestação visa a sensibilizar o governo sobre a necessidade de um diálogo com a sociedade.
“Dom Cappio fez o seu primeiro jejum [em 2005] e foi feito um acordo de abrir um amplo diálogo com a sociedade civil. Isso foi negado. Diante disso, ele retomou o jejum em oração e está disposto a doar sua vida pela causa do Rio São Francisco e a vida do povo ribeirinho, que depende dele para a sobrevivência.”
A integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) Marina dos Santos também pede a abertura de um diálogo entre governo e movimentos sociais.
“São questões defendidas pelos movimentos sociais e organizações de trabalhadores e estão encampados nesse jejum feito simbolicamente por dom Cappio, no sentido de que também a população possa discutir e o governo possa abrir um espaço de diálogo com a sociedade. Esse processo nos foi negado desde o princípio da transposição do Rio São Francisco.”
O padre Antônio Pereira afirmou também que rio está morrendo e que, por isso, as obras devem ser suspensas. “Para nós, a transposição é um sinal de morte, porque o rio está anêmico. Dom Luiz Cappio costuma dizer que um anêmico não pode doar sangue. Nós que moramos na beira do São Francisco percebemos que o rio está morrendo aos poucos.”
O movimentos sociais defendem a revitalização do Rio São Francisco com a construção de poços artesianos, cisternas e captação de água da chuva.
O protesto dura até amanhã (19), quando o Supremo Tribunal Federal (STF) deve julgar o pedido de agravo do procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, que pede a suspensão das obras de transposição do Rio São Francisco.
Cappio e movimentos reivindicam transposição suspensa para encerrar protesto
Ana Luiza Zenker
Repórter da Agência Brasil
A continuidade da suspensão das obras de transposição no Rio São Francisco é o primeiro dos oito pontos da proposta elaborada pelo bispo Luiz Flávio Cappio e pelos movimentos sociais contrários ao projeto, que deve ser apresentada hoje à Presidência da República. A plataforma foi apresentada há pouco em entrevista coletiva.
A suspensão é apresentada como condição fundamental para que o bispo de Barra (BA) interrompa a greve de fome, iniciada há 22 dias. A reivindicação inclui a retirada das tropas do Exército que estão na região para as obras.
A reunião está marcada para as 20 horas na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Os representantes da entidade católica e dos movimentos devem se reunir com o chefe-de-gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho.
Os manifestantes também pedem a implementação das obras previstas no Atlas Nordeste - Abastecimento Urbano de Água, elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA). Além disso, reivindicam a elaboração e a concretização de projetos revitalizar a Bacia do São Francisco e três outras - Jaguaribe, no Ceará, Piranhas-Açu, na Paraíba e no Rio Grande do Norte, e Parnaíba, no Piauí e no Maranhão -, bem como os rios temporários do Semi-Árido.
A principal crítica dos movimentos é que cerca de 70% do volume desviado de água deve se destinar a irrigação de grandes plantações e a criações de camarão. Segundo eles, o uso para o abastecimento da população responderá por 4% do total.
O governo afirma que a prioridade é o abastecimento humano, e que somente garantido este os estados poderão usar água para outras finalidades.
Dom Cappio e os movimentos sociais também querem que a União apóie a introdução, ampliação e difusão de tecnologias para a captação, armazenamento e manejo de água, para o abastecimento humano e a produção agropecuária das comunidades do semi-árido.
A revitalização do São Francisco contemplaria também a preservação do Cerrado e da Caatinga, com suporte orçamentário do Fundo de Revitalização do Rio São Francisco, “conforme a PEC [proposta de emenda constitucional] a ser aprovada imediatamente no Congresso Nacional”, diz o documento da proposta.
Por fim, a proposta pede apoio técnico-político para o Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco para elaborar o Pacto de Gestão das Águas do São Francisco, atendendo a demandas de abastecimento humano e animal, e também que a União coordene a elaboração e implementação de um Plano de Desenvolvimento Sustentável para o semi-árido brasileiro.
Movimentos sociais dizem que transposição prioriza grandes negócios
Ana Luiza Zenker
Repórter da Agência Brasil
A água que será desviada do Rio São Francisco com a transposição não vai ter uso social, mas vai ser destinada a irrigar as grandes plantações e abastecer a criação de camarão e a mineração.
É o que afirmam representantes dos movimentos sociais reunidos desde ontem (17) na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em apoio ao jejum do bispo de Barra (BA), dom Luiz Cappio, e contra o projeto de transposição do Rio São Francisco.
“É um projeto em que as informações têm sido constantemente manipuladas, não são verdadeiras e a gente sabe disso, os fins não são matar a sede do povo nordestino, tem fins industriais, que estão expostos no projeto, não é só aqui, um bando de movimentos sociais tachados de loucos que estão falando isso, está no projeto de transposição e o governo não tem coragem de trazer isso à tona”, afirmou a representante da Associação dos Advogados dos Trabalhadores Rurais, Juliana Barros, durante coletiva.
De acordo com números apresentados pelos movimentos sociais, cerca de 70% da água transposta vai ser destinada para as grandes lavouras e para a criação de camarão, 26% vai para cidades e indústrias, mais especificamente projetos de mineração, e 4% vai ser usada para abastecimento da população.
“Nós temos exemplos vários de pessoas que moram à beira do Rio São Francisco, a cinco, dez quilômetros e não têm acesso à água, então a gente tem consciência, tem certeza de que a água que está sendo transposta do Rio São Francisco não é para atender as populações que necessitam, mas para servir ao hidronegócio, ao agronegócio e ao capital estrangeiro”, disse João dos Santos, integrante da Coordenação Nacional das Comunidades Negras Rurais e Quilombolas.
Para a atriz e integrante da organização Humanos Direitos, Letícia Sabatella, falta informação e esclarecimento da população sobre o projeto da transposição das águas do rio. “A gente só ouve falar nela como a única solução, mas é importante que se faça saber para a população, e isso é o que foi pedido por Dom Cappio no primeiro jejum e que não aconteceu, que existem propostas alternativas para o Semi-Árido, mais baratas, viáveis, que realmente são voltadas para tornar sustentável o Semi-Árido, auto-sustentável a região”, afirmou.
Representantes de movimentos sociais estão em vigília na Praça dos Três Poderes desde ontem (17), em apoio à greve de fome de dom Cappio, que chegou ao seu 22º dia.
Em reunião que será realizada hoje (18) entre a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e a Presidência da República, os representantes dos movimentos sociais irão apresentar uma proposta elaborada pelo bispo da Bahia. A principal reivindicação é a suspensão das obras e a retirada das tropas do Exército da região.
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