Chuvas não apagam rastro da seca

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Chuvas não apagam rastro da seca

Primeiras chuvas em seis meses não apagam rastro da seca em Monte Azul

Marco Antônio Soalheiro
Enviado Especial

O visitante que se aproxima do distrito de Pajeú, na zona rural de Monte Azul, norte de Minas Gerais, se depara nesses dias com uma cena em princípio inusitada, mas que tem se tornado comum nos últimos períodos de seca.

Trata-se de um encontro entre dois rios – Pajeú e Tremedal – completamente secos, o que obriga moradores da região a dividirem a água distribuída por carros-pipa com os animais.

A situação dos rios é reflexo, além da falta de chuvas, da ação predatória de parte dos agricultores junto às encostas. “Fazem muito desmatamento na beira da serra. Tiram madeira para vender, para ter espaço para plantar um rocinha na beira do rio”, descreveu Aristeu Oliveira, 42 anos, todos eles vividos na região.

As chuvas que começaram a cair esta semana, após seis meses de estiagem, terão de ser intensas nas próximas semanas para que os rios encham antes do final do ano.

Um pouco à frente, a senhora Laudir Cardoso, 57 anos, trabalha em uma pequena plantação de algodão e mandioca, visivelmente esturricada. Ele retira as mudas estragadas e planta novas à espera de efeitos positivos com a volta das águas. “Perdemos metade da produção. Nossa plantação de mandioca, vai demorar agora mais dois anos para colher”, reclamou.

Com uma roça voltada a apenas para consumo próprio, Laudir complementa a aposentadoria de um salário mínimo com R$ 62,00 recebidos do programa Bolsa Família. Dos 8 filhos, apenas 2 permanecem em Monte Azul, pois os demais reforçam as estatísticas da emigração constante na região. “Não tinha serviço ordenado aqui e foram embora [para o interior de São Paulo] tentar algo melhor”, contou.

À medida em que se avança pela zona rural do município com área total de 991,57 quilômetros quadrados, mais cicatrizes da seca surgem expostas. Dezenas de casas em situação precária estão abandonadas. Em pastos ralos, vacas magras e algumas mortas.

Segundo relato de moradores, uma família que possui duas boas vacas leiteiras pode se sentir privilegiada, pois conseguirá tirar delas o necessário para uma alimentação digna. Cada uma dá em média de 8 a 10 litros de leite por dia, vendidos a R$ 1,00 cada para laticínios. Num mês tira-se em torno de R$ 600 reais, desconta-se um custo de aproximadamente R$ 200,00, e o restante ” dá para fazer a feira”.

Ao analisar o agravamento da pobreza na região, Aristeu Oliveira, que já foi vereador, recordou com ar saudosista que há 25 anos, quando ainda chovia, segundo ele, de setembro a março, a vida era melhor. Para ele, a água diminuiu e o comportamento das pessoas também mudou. “O algodão dava um bom dinheirinho e não tinha essa crise. Ninguém ligava para essas modinhas de roupas, por exemplo. Bastava ter duas calças e duas camisas para trabalhar e mais uma roupa bonita para o São João”.

De acordo com os dados oficiais o município de Monte Azul, a 530 quilômetros de Belo Horizonte, reúne em torno de 24 mil habitantes, 52% deles vivendo na área rural. Segundo o chefe de gabinete da prefeitura, Francisco de Assis, com a seca dos últimos seis meses 60 comunidades rurais, onde vivem quase 8 mil pessoas, ficaram na dependência dos caminhões-pipa.

 

Uso inadequado do solo é agravante da seca no norte de Minas, aponta Emater

Marco Antônio Soalheiro
Enviado Especial

Funcionários dos escritórios da Emater-MG são os principais responsáveis pela prestação de serviços de apoio aos pequenos agricultores do norte de Minas Gerais para a convivência com a seca.

Os técnicos entendem que uma nova realidade na região, com desenvolvimento sustentável consolidado, ainda exigirá, além do reforço no auxílio, mudanças profundas de comportamentos tradicionais nas lavouras.

“A produção de alimentos e a disponibilidade de água para consumo humano estão muito relacionados com a questão da conservação do solo e do tipo de exploração que a gente vê na região, que é muito degradadora. Os produtores trabalham o solo pensando apenas na produção para aquele ano e não fazem uma programação sustentável”, argumentou o coordenador regional de meio ambiente do escritório da Emater-MG em Janaúba, José Godrim.

“O papel da Emater é tentar colocar em prática essa cultura de preservação, para que as pessoas façam uso das propriedades respeitando as matas ciliares e as vegetações de topo. Para ter água disponível, tem que ter mais cuidado com o solo”, acrescentou. Godrim cita como exemplos de práticas inadequadas comuns na região as queimadas, o desmatamento e a mecanização descontrolada. Quadro que, segundo ele, se não for revertido, pode levar à uma futura desertificação.

Uma parceria entre órgãos federais e estaduais viabilizará nos próximos dois anos investimentos no manejo integrado de bacias hidrográficas da região. Assentamentos e comunidades quilombolas de seis municípios também receberão intervenções para cercamento de nascentes e da mata ciliar, construção de bacia de captação de água de chuva e barragens subterrâneas.

Apesar das várias reclamações ouvidas pela Agência Brasil por parte de produtores da região, quanto à ineficiência da assistência técnica prestada, o coordenador regional de culturas da Emater em Janaúba, Arquimedes Batista, sustentou que há sim um trabalho efetivo na região.

“Temos incentivado e disseminado o plantio de sorgo, que substitui em até 100% o milho. Com os veranicos ou períodos longos de estiagem ele entra em dormência e não compromete a produção”, disse Arquimedes, ao ressaltar ainda o algodão, a mamona e variedades novas de feijão como as culturas com melhor potencial na região.

O coordenador de culturas também lembrou a distribuição de sementes dentro do programa “Minas sem Fome”, do governo do estado. “De quatro anos para cá temos distribuídos sementes direcionadas para a região, com o repasse de sementes de sorgo e feijão para os agricultores familiares”. A distribuição foi confirmada por agricultores da região, mas segundo alguns deles, ela acontece via sindicatos, o que acarretaria desvios e distribuições desiguais.

Na pecuária, a perda de animais nos últimos dois anos foi resultado da combinação da estiagem com a ocorrência de pragas. “Na seca do ano passado e desse ano o que mais prejudicou foi os grandes veranicos que ocorreram entre as chuvas. Houve também um ataque de cigarrinhas, que matou parte das pastagens. Com a vinda da chuva, a pastagem tava morta, o gado ia comendo e não dava tempo de recuperar, o que fez agravar mais para este ano”, descreveu Arquimedes.

Ele reclamou que a exposição pela imprensa de animais mortos prejudica a imagem da região e não reflete o potencial de desenvolvimento existente. Mas demonstrou ciência de que a realidade não é das melhores, ao comentar o fato de muitos municípios terem decretado estado de emergência.

“Houve prejuízos circunstanciais e a economia desses municípios é quase 100% rural. O comércio representa pouco. Então, quando se calcula uma perda de 40% a 50% da produção, isso reflete em toda a região”, admitiu.

Agência Brasil

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