Monitoramento do desmatamento

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Monitoramento do desmatamento

Satélites vão garantir mais precisão em dados sobre desmatamento, diz professor

Pedro Peduzzi
Repórter da Agência Brasil

O Brasil não sabe exatamente o quanto de Cerrado é desmatado anualmente. As estimativas variam de 4,5 mil quilômetros quadrados a até 60 mil. Com o uso de satélites para monitorar o desmatamento em outros biomas além do Amazônico – medida anunciada esta semana pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc -, será possível ter uma idéia mais precisa sobre os prejuízos causados no Cerrado.

A opinião é do professor do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB), Donald Sawyer, especialista nos biomas do Cerrado, da Caatinga e Amazônico.

“Os satélites poderão nos ajudar a saber, de forma mais precisa, qual é a realidade dos biomas brasileiros. Os números que já saíram sobre o desmatamento no Cerrado são bastante desencontrados. As estimativas mais realistas apontam que a área desmatada anualmente vai de 1,1% a 1,5%. Proporcionalmente, é um número bastante superior ao registrado na Amazônia”, argumenta o professor.

Sawyer adverte que haverá dificuldades técnicas para detectar o desmatamento por satélite no Cerrado e na Caatinga. “Ainda não é possível diferenciar o que é campo sujo, um tipo de vegetação original do Cerrado, do pasto sujo, que está relacionado ao desmatamento”, explica.

O desafio, segundo ele, será grande. “Mas o Brasil está entre os mais desenvolvidos em termos de monitoramento por satélites”, completa.

Apesar da dificuldade, Sawyer vê o uso de satélites para o monitoramento dos biomas brasileiros como um “passo importantíssimo na política ambiental do país, fundamental para entender os ecossistemas no seu conjunto”. Ele explica que há, entre esses biomas, uma grande interdependência e que, portanto, monitorar o Cerrado também ajuda a proteger os outros biomas.

“Embora a Amazônia seja importante, focar as ações apenas nela pode resultar em prejuízos tanto para o meio ambiente quanto para o desenvolvimento, causando, inclusive, implicações em outros países e em regiões vizinhas por causa da distribuição das chuvas”, afirma.

Sawyer argumenta que o padrão de precipitação das chuvas na Amazônia depende, em parte, da cobertura vegetal de outras formações, responsáveis por devolver umidade para a atmosfera. Combinado aos efeitos do aquecimento global, o desmatamento pode interromper os fluxos interregionais da umidade atmosférica.

“O Cerrado é a caixa d’água do Brasil, onde nascem e crescem os afluentes dos rios Paraná, São Francisco e dos afluentes do Amazonas”, explica o professor. “As principais bacias hidrográficas dependem da água que vem desse bioma, por meio da Amazônia”, completa.

Segundo o professor, o ar úmido do Atlântico entra na Amazônia e cai na forma de chuva. “Grande parte dessa água acaba voltando para a atmosfera por meio de evapotranspiração [evaporação da água do solo, das superfícies líquidas e por meio da transpiração das plantas].”

Ao evaporar novamente, essa água segue para os Andes e, depois, rumo ao Sul, passando pelas regiões Centro-Oeste e Sudeste. “São os chamados rios voadores”, informa o professor. “Precisamos entender melhor o que está acontecendo com o desmatamento em todos os biomas porque eles estão interligados”, acrescenta.

“O mundo todo só pensa na Amazônia e esquece que ela depende dos outros biomas. O desmatamento no Cerrado pode resultar na falta de água para a região e, conseqüentemente, para o resto do país, prejudicando as atividades agrícolas, o abastecimento e também as hidrelétricas dos sistemas hídricos do São Francisco e do Paraná”, adverte o professor da UnB.

Para a diretora de Gestão do Conhecimento da organização não-governamental SOS Mata Atlântica, Márcia Hirota, a utilização de satélites para monitorar desmatamentos em todos os biomas brasileiros é uma “demonstração de que o Poder Público está atuando em prol da proteção das florestas e biomas naturais do país e de seus recursos”.

Hirota afirma que, com essa medida, será possível evitar que os 7% restantes da Mata Atlântica brasileira sejam desmatados porque poderão ser melhor monitorados.

“Já temos uma parceria com o Inpe [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] que nos possibilita fazer um monitoramento desse tipo a cada cinco anos. Mas, sem a menor dúvida, essa ferramenta nos dará condições de beneficiar de forma mais significativa e eficiente a proteção de nossa biodiversidade”, argumenta.

 

Monitorar desmatamento dos biomas pode resultar em mais crédito de carbono

Pedro Peduzzi
Repórter da Agência Brasil

A medida anunciada quinta-feira (16) pelo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, de utilizar satélites para monitorar o desmatamento em outros biomas além do amazônico, pode resultar em aumento “de bilhões de dólares” para o Brasil por meio de crédito de carbono.

A opinião é do coordenador de Ciências do Programa de Savanas Centrais do The Nature Conservancy (TNC), Leandro Baumgarten, especialista em biomas como Cerrado, Caatinga, Pantanal e Pampa, no Brasil, além dos Chacos argentino, boliviano e paraguaio.

“A partir das informações coletadas teremos melhores condições de coordenar as ações de combate ao desmatamento. Além disso, o mesmo mecanismo de crédito de carbono contabilizado a partir da Amazônia passará para outros biomas, trazendo mais recursos para o país por meio da Redd [Redução de Emissão por Desmatamento e Degradação]”, explica Baumgarten.

Segundo o pesquisador, esse índice leva em consideração a atividade humana, calculando o carbono despejado por carros e indústrias, e o desmatamento na Amazônia. “Agora, com outros biomas passando a fazer parte do cálculo, esses valores devem chegar à ordem dos bilhões de dólares”, prevê Baumgarten. Ele explica que, apenas com o Fundo Amazônico, o Brasil receberá US$ 1 bilhão no prazo de cinco anos, contados a partir do ano passado.

“Fora o Pantanal, que ainda tem uma boa cobertura, todos os biomas estão bem mais desmatados do que o Amazônico. O Cerrado e a Caatinga têm apenas 60% da cobertura original, enquanto o Pampa tem 50% e a Mata Atlântica menos de 10%”, disse.

Apesar de tecer elogios ao uso de satélites em outros biomas, a iniciativa do governo foi considerada “tardia” por Baumgarten.

“A última avaliação feita pelo governo sobre as coberturas vegetais de todos os biomas brasileiros foi em 2002. Depois disso, nenhum outro levantamento foi feito e, infelizmente, não existem informações sobre o nível de desmatamento do Pantanal e da Caatinga”, argumenta. “Mas nossas esperanças ficam renovadas com os satélites apontando para os outros biomas e com a possibilidade de que novos estudos sejam implementados”, completa.

Agência Brasil

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