Reunião expõe divergências entre moradores de Tailândia (Pará) e o Ibama

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Reunião expõe divergências entre moradores de Tailândia (Pará) e o Ibama

Cerca de um sétimo da madeira apreendida em Tailândia foi retirado, estima secretaria

Marco Antônio Soalheiro
Enviado especial

Lotes de madeiras cortadasDos cerca de 15 mil metros cúbicos de madeira apreendidos nas Operações Guardiões da Amazônia e Arco de Fogo, 2.100 metros cúbicos – aproximadamente um sétimo do total – foram retirados até o momento. A informação é do gerente de monitoramento ambiental da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema) do Pará, Marcelo Faria.

Vinte e quatro técnicos da Sema e 14 do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) participam dos trabalhos de autuação e organização da retirada do material.

“Já está tudo sendo solucionado. A polícia ambiental está providenciado mais agentes e a secretaria também. Temos quatro empilhadeiras trabalhando e duas empresas de transporte contratadas”, informou Faria.

Segundo ele, cerca de 400 metros cúbicos por dia estão sendo retirados por terra e balsa em direção a um depósito na região metropolitana de Belém. Ao todo, 35 caminhões estão a postos para transportar as toras. A carga puxada por cada um varia entre 25 e 60 metros cúbicos.

Carvoarias“O desafio agora é otimizar o trabalho, fazendo a retirada simultânea em duas serrarias. Uma parte vai por balsa e outra pelos caminhões até Belém”, ressaltou Faria. O volume transportado exige uma checagem minuciosa para que não exceda a quantidade declarada no termo de apreensão lavrado pelo Ibama. As espécies mais transportadas são faveiro e cajuaçu, usadas para lâminas. A estimativa do Ibama é de que ao final do trabalho de fiscalização sejam encontrados até 40 mil metros cúbicos de madeira extraída de forma irregular.

Logo na chegada à cidade de Tailândia, percebe-se o quanto as madeireiras e serrarias representam na economia local. Dezenas delas se sucedem nas duas margens no trecho urbano da Rodovia PA-150. Um sobrevôo em helicóptero do Ibama deu à equipe da Agência Brasil uma dimensão da quantidade de madeira existente nos pátios das empresas. O último Censo Agropecuário do IBGE registra uma produção anual de 1,4 milhão de metros cúbicos de madeira em toras no município.

“A fiscalização nos reporta a uma situação de agravamento da pressão sobre os recursos naturais, que merece resposta do governo”, afirmou o capitão Fernando Bilóia, comandante do efetivo da polícia ambiental na Operação Arco de Fogo.

 

Moradores de Tailândia pedem alternativas de renda para substituir madeira

Marco Antônio Soalheiro
Enviado especial

Em cada ação dos fiscais e agentes da Operação Arco de Fogo nas madeireiras do município paraense, forma-se um conjunto de moradores que acompanham com atenção e curiosidade os fatos. Estão sempre abertos a conversas, mas muitos se negam a dar entrevistas formais e revelar nomes. Os que topam reclamam dos efeitos que a fiscalização terá na economia local.

“Como vai ficar a população de Tailândia?”, questionou Daniel Monteiro, 48 anos, corretor de vendas de madeira. “Nossa renda está na madeira e não há outros meios para sobreviver. Fico imaginando a cidade daqui a uns 45 dias, todo mundo desempregado. Hoje estou à-toa olhando para o tempo”, acrescentou.

O vendedor de polpa de frutas Arlindo Cassimiro da Silva manifestou solidariedade aos conterrâneos. “Tem muitos pais de família, com vários filhos, que dependem do setor madeireiro. A criança vai pedir comida e vai chorar amargamente. Nosso pão vem da providência de Deus, mas a comunidade precisa trabalhar”, argumentou o morador, que é evangélico.

Silva defendeu que a prefeitura e o governo do estado trabalhem pela instalação de indústrias em Tailândia, para gerar empregos permanentes para a população. “Não adianta só tirar madeira. Onde tira e não se coloca, se acaba. Também tem que gerar alguma coisa para o povo. Até agora não vi isso, para o pessoal ficar tranqüilo”, disse.

O governo do Pará já manifestou a intenção de leiloar a madeira apreendida em Tailândia e se comprometeu aplicar no mínimo 50% dos recursos arrecadados em ações sociais voltadas aos trabalhadores que perderem postos de trabalho na cidade. A prefeitura de Tailândia estima que 70% do dinheiro que circula na cidade venha da madeira.

 

Dono de carvoaria diz preferir ilegalidade à prática de corrupção

Marco Antônio Soalheiro
Enviado especial

Valdinei Palhares, agricultor de 56 anos, faz questão de se apresentar sem rodeios também como dono de uma carvoaria ilegal na zona rural de Tailândia. Na cidade desde 1974, ele diz ter pedido há um ano providências do Ministério Público para que fosse regularizada a situação de trabalho no setor madeireiro local.

Segundo Palhares, o município se desenvolveu sem cuidados com o meio ambiente e a culpa da situação atual de degradação deve ser dividida entre os governos das três esferas e a comunidade.

“O município está em calamidade pública, por causa das irregularidades, do descaso governamental e da corrupção. Temos duas opções: ou somos corruptores ou ilegais. Achei melhor ser ilegal do que roubar”, afirmou.

A carvoaria do agricultor funciona, segundo ele, durante três ou quatro meses do ano, na queima de galhos que ele retira de seu pasto: “Quem trabalha o ano inteiro não tem como pagar o direito dos trabalhadores. É um escravizando o outro”. Indagado sobre o motivo para se manter na ilegalidade, ele alega que órgãos ambientais só liberam a licença se “correr grana” .

Para Valdinei Palhares, a Operação Arco de Fogo, deflagrada com o objetivo de combater a exploração ilegal de madeira na região, não é suficiente para garantir um futuro melhor à população local.

“O governo tem que sentar com os segmentos da sociedade e fazer um programa social, ecológico e econômico. Transformar o município na capital do dendê, do carvão vegetal reflorestado”, defendeu.

 

Reunião expõe divergências entre moradores de Tailândia e o Ibama

Marco Antônio Soalheiro
Enviado especial

Durante encontro hoje (28) entre lideranças locais, deputados e agentes da Operação Arco de Fogo, não faltaram críticas às ações de fiscalização implementadas em serrarias e madeireiras na cidade.

Uma das manifestações mais duras partiu de Ademar Farias, comerciante de 60 anos que vende e aluga máquinas para madeireiras. Ex-combatente das forças militares da guerrilha do Araguaia em 1972 e 1973, ele está em Tailândia há 18 anos. E responsabiliza os órgãos de governo por ilegalidades encontradas na cidade.

“Dizem que tem mais de 50 mil metros cúbicos de madeira ilegal aqui, mas isso não entra num pátio de uma hora para outra. Quer dizer que alguém era conivente com isso há mais tempo”, disse Farias.

Na visão do comerciante, a origem da madeira encontrada nos pátios das serrarias locais é muitas vezes ilegal porque os agentes de governo não agilizam os projetos de manejo. “Parece que as entidades deixam a gente na ilegalidade para poder corromper”, afirmou Farias, sob aplausos de conterrâneos.

O dinheiro gasto pelo governo estadual com a retirada do material apreendido também foi questionado por Farias: “A governadora devia pegar esse dinheiro que está pagando o frete, deixar a madeira aqui, leiloar e juntar tudo para gerar emprego.”

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) foi representado no encontro pelo coordenador de fiscalização na Operação Arco de Fogo, Bruno Versiani, que disse promover apenas o estrito cumprimento da lei na região, onde estaria em expansão um processo de desertificação provocado pelo desmatamento.

“Estamos aqui cumprindo a lei, tomando paulada, mas tentando reverter este processo”, afirmou, ao acrescentar que os períodos secos na Amazônia estão cada vez mais longos.

Versiani disse concordar com as reclamações da população, de que a fiscalização poderia ser precedida de outras ações do Estado, mas lembrou que não cabe ao Ibama essa decisão. Ele reconheceu, por exemplo, que a indefinição de questões fundiárias dificulta a fiscalização ambiental. E ainda prometeu que o órgão não cometerá abusos na região.

“Não queremos prejudicar ninguém. Temos bom-senso na hora de aplicar sanções. Adoro chegar numa madeireira e não dar multa, ver a empresa regularizada”, ressaltou.

Após 15 dias em Belém, o prefeito de Tailândia, Paulo Jasper (PSDB), o Macarrão, voltou à cidade para a reunião e disse estar negociando a ida de deputados para verem de perto os reflexos da Operação Arco de Fogo no município. “Procurei não dar declaração à imprensa para se construir pontes e resolver o problema de forma inteligente. Palavras e conversas fiadas é muito fácil”, alegou Macarrão.

Mais cedo, na porta de sua casa, o prefeito havia promovido a distribuição gratuita de 3.500 cestas básicas, adquiridas com dinheiro da prefeitura, como foi confirmado pela mulher dele, Hígia Frota, secretária de Ação Social do município.

Agência Brasil

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Maurí­cio MachadoBiólogo e ambientalista, responsável pelo projeto AMAnatureza e articulista com fundamentos e conhecimento para discutir assuntos voltados ao meio ambiente com uma visão crítica, analisando o tema de maneira radical e completa.Ver todas as publicações de Maurí­cio Machado »

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