Rondônia: impacto das usinas hidrelétricas do Rio Madeira

Todos os dias publicamos novos conteúdos e conquistamos um número cada vez maior de usuários. A equipe do portal AMA agradece a todos os usuários que acessam constantemente este site, que já é uma referência nacional sobre preservação ambiental e desenvolvimento sustentável. E lembre-se, não basta apenas conhecer os problemas, é necessário agir! Cada um fazendo sua parte, de forma consciente, ajuda a melhorar o ambiente em que todos nós vivemos.

Rondônia: impacto das usinas hidrelétricas do Rio Madeira

Crescimento econômico de Rondônia deverá aumentar pressão sobre floresta

Luana Lourenço
Enviada especial

Impulsionado pela construção das usinas hidrelétricas do Rio Madeira, o crescimento econômico de Rondônia nos próximos anos deverá se refletir na elevação dos índices de desmatamento do estado. De acordo com dados de 2006 do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a área desmatada em Rondônia chega a 38% do estado, atingindo cerca de 80 mil quilômetros quadrados. Entre os municípios, a capital, Porto Velho, é a primeira em área devastada: 34.636 quilômetros quadrados.

Além do complexo hidrelétrico, a estratégia de investir em rodovias para facilitar o escoamento da soja e a chegada de um contingente populacional de cerca de 100 mil pessoas em dez anos terão impactos sobre a ocupação territorial e o avanço da cidade e da agropecuária pela floresta.

“Eles [ambientalistas] falam em 25% ou 26% de desmatamento. Considero esse um número satisfatório e não acho que estamos acabando com a floresta”, diz o pecuarista Orozimbo do Nascimento. “Mas o produtor também está preocupado com o meio ambiente e acredito que é possível utilizar aquilo que já derrubamos para produzir com mais custo”, acrescenta.

Com um rebanho de 12 milhões de cabeças, o estado vende leite para a Região Norte e, além de distribuir para o mercado interno, exporta carne para países como a Rússia. Apesar desse desempenho, o presidente da Associação Rondoniense dos Produtores de Nelore, José Macedo da Silva, reconhece que a substituição da pecuária pela soja é uma tendência do agronegócio brasileiro que pode chegar a Rondônia, principalmente pelos investimentos em transporte que devem facilitar o escoamento do grão.

“A gente costuma dizer que a soja e a cana-de-açúcar vêm encurralando o boi, jogando o boi para o morro. Aqui, como não tem muito morro, elas vêm jogando o boi para o mato. A soja vai chegar aqui, principalmente nas áreas mais planas, boas para mecanização”, prevê Macedo. Para ele, a mudança representará riscos maiores para a floresta, mas não em grandes proporções, por causa da “enorme pressão ambientalista que os produtores já estão sofrendo”.

A preocupação ambiental é um dos focos de estudos encomendados pelo Ministério Público de Rondônia para avaliar os impactos do crescimento do estado nos próximos anos, principalmente em relação à obra das hidrelétricas do Rio Madeira. O órgão será responsável por acompanhar as exigências do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para a aprovação da licença prévia das usinas, como o monitoramento de espécies da fauna e da flora e a ocupação de novas áreas de floresta.

“Os aspectos ecológicos estão sendo bem observados. Mas não se pode ficar tranqüilo cada vez que se fala em planejamento no Brasil”, pondera o subprocurador-geral de Justiça do estado, Ivo Benitez. “Deve-se ficar atento às providências que serão tomadas para ver se as coisas sairão como planejadas.”

 

Após leilão de usinas do Rio Madeira, população ribeirinha está apreensiva

Luana Lourenço
Enviada especial

Depois de um ano marcado por protestos, moradores das margens do Rio Madeira (RO) que serão atingidos quando a água for represada para formação das barragens das usinas de Santo Antônio e Jirau estão ainda mais apreensivos com a perspectiva do início das obras, após o leilão que definiu o consórcio executor das usinas, em dezembro.

O começo das obras depende da licença de instalação, concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Em entrevista à Agência Brasil no início de janeiro, o diretor de Licenciamento Ambiental do órgão, Roberto Messias Franco, afirmou que a autorização para as obras deverá sair entre o fim de 2008 e o começo do próximo ano. O complexo é um dos principais empreendimentos energéticos previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que completa um ano hoje (22).

“Quando eles anunciarem que vão fechar as comportas, se não tiverem retirado a gente de lá, vamos ter de sair, porque ninguém é peixe para viver na água”, desabafa o agricultor José Ferreira da Silva, ribeirinho da comunidade de Joana D’Arc, próxima à futura hidrelétrica de Santo Antônio.

Assim como a família de Silva, outras 2,5 mil terão de deixar a área próxima às hidrelétricas – segundo cálculo das empresas Furnas e Odebrecht, responsáveis pela obra. De acordo com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no estado, esse número pode chegar a 10 mil.

Antes do início das obras, as famílias deverão ser reassentadas em outras regiões. No entanto, grande parte dos ribeirinhos não acredita que a mudança será positiva, de acordo com um dos representantes do MAB, José de Oliveira Paes. “Não queremos que a situação da usina de Samuel se repita. Até hoje, há famílias não indenizadas”, afirmou, em referência aos atingidos pela barragem da hidrelétrica de Samuel, construída a 50 quilômetros de Porto Velho na década de 1980.

De acordo com o MAB, os moradores ainda não têm data ou previsão de quando serão transferidos, o que aumenta a preocupação das comunidades ribeirinhas. “Isso é que eu estou matutando. Só sei que, mais cedo ou mais tarde, vou ter de sair. A minha idéia é sair por morte. Nasci e me criei lá. Jamais quero sair”, conta o pescador José Maria Silva Mendes, morador de uma comunidade próxima à Cachoeira de Teotônio, que ficará submersa com a construção da primeira usina.

O complexo hidrelétrico do Madeira produzirá 6.450 megawatts – aproximadamente metade da potência de Itaipu, usina mais potente do país. Segundo o governo, as duas usinas deverão suprir 8% da demanda energética do país, por meio da integração ao Sistema Interligado Nacional. De acordo com o consórcio Furnas-Odebrecht, a energia produzida pelas turbinas atenderá primeiramente o estado de Rondônia, ainda abastecido por termelétricas. O excedente será exportado para outros estados.

 

Para prefeito, impacto de hidrelétricas pode ser menor que esperado

Luana Lourenço
Enviada especial

Administrador de um dos municípios brasileiros que mais receberá recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o prefeito de Porto Velho (RO), Roberto Sobrinho (PT), prefere ser cauteloso ao comentar a expectativa de crescimento acelerado da economia local nos próximos anos, estimulada principalmente pela construção das usinas hidrelétricas do Rio Madeira, orçadas em R$ 20 bilhões.

Em entrevista à Agência Brasil, Sobrinho detalhou que os cerca de R$ 600 milhões já repassados pelo governo federal ao município serão gastos em investimentos em saneamento e programas de habitação popular. Ele, no entanto, acredita que o impacto das usinas sobre o contingente de pessoas atraídas para a capital pode ser menor que o esperado.

“Prever número é um exercício de futurologia. Talvez não aconteçam grandes deslocamentos, o país não passa por uma recessão. Há postos de trabalho nos estados”, avalia.

Para Sobrinho, as hidrelétricas “não podem ser vistas como um fim, mas um meio” e devem ser encaradas como oportunidade de consolidação de bases de crescimento para Porto Velho para evitar o posterior esvaziamento da cidade e da economia local, como ocorreu em cidades que abrigaram obras de grandes hidrelétricas, como Tucuruí (PA).

De acordo com o gestor, outros ciclos econômicos vividos pelo estado, como o garimpo na década de 1980, resultaram mais em impactos negativos que benefícios para a região. “Levaram as riquezas e ficaram apenas os problemas sociais”, observa.

Este ano, a prefeitura deverá começar a executar os projetos de saneamento para expandir o tratamento de esgoto, que atualmente só atende a 3% da população, e universalizar o abastecimento de água, hoje restrito a 50% dos moradores. Também estão previstas 1,2 mil casas populares para famílias que vivem em torno de canais e palafitas às margens do Rio Madeira.

Em relação ao estímulo que a melhoria da infra-estrutura e o crescimento econômico da região podem dar ao avanço do desmatamento, Sobrinho afirma que não há necessariamente relação direta entre os empreendimentos e a pressão sobre a floresta.

“A pressão sobre a floresta se dá hoje não em função dos empreendimentos, mas por causa da indústria da madeira”, aponta. “Ela [a madeira] ficou escassa em determinadas regiões do estado, o que fez as madeireiras se deslocarem para cá.”

Sobre o possível aumento das plantações de soja nos arredores de Porto Velho, o prefeito transfere a responsabilidade para o governo estadual. Segundo ele, a soja já está ganhando espaço no interior de Rondônia, e o avanço rumo a Porto Velho dependerá de políticas de desenvolvimento do estado, não da prefeitura. “Se o estado entender que esse tipo de atividade econômica é a mais adequada, ele pode até estimular o plantio de soja. Eu, particularmente, não acredito nisso e não sou a favor”, ressalta.

Agência Brasil

Sobre

Maurí­cio MachadoBiólogo e ambientalista, responsável pelo projeto AMAnatureza e articulista com fundamentos e conhecimento para discutir assuntos voltados ao meio ambiente com uma visão crítica, analisando o tema de maneira radical e completa.Ver todas as publicações de Maurí­cio Machado »

  1. PEDRO CARVALHO
    PEDRO CARVALHOdez 08, 2008

    eU ACHO QUE NÃO DEVERIA SAIR ESSA NOVA BARRAGEM DE RONDONIA, POIS FICAREMOS SEM AAS MATAS E AS MATAS NOSSAS JA ESTA ACABANDO…….. SOU CONTRA ESSA BARRAGEM ABRIR….

Deixar uma Resposta

Você precisa estar logado para publicar um comentário.